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Currículo de motorista: exemplo, CAM e o que as transportadoras procuram

Exemplo de currículo de motorista de pesados em Portugal: cartas, CAM e código 95, tacógrafo, ADR, bullets com números e o contrato coletivo que te aplica.

8 min de leitura
Illustration for Currículo de motorista: exemplo, CAM e o que as transportadoras procuram

Faltam motoristas em Portugal e isso não é segredo para ninguém no setor. O inquérito anual da IRU sobre escassez de motoristas, divulgado pela ANTRAM, registou uma queda de 5,8 por cento na proporção de motoristas jovens entre 2023 e 2024, e as transportadoras andam há anos a recrutar fora do país para tapar buracos nas escalas. As páginas do Indeed Portugal para motorista C e para motorista C+E listam com regularidade mais de cem ofertas cada.

Isto devia significar que qualquer motorista com carta arranja emprego numa semana. Muitas vezes não acontece, e a razão costuma ser banal: o currículo não diz, logo nas primeiras linhas, aquilo que quem recruta precisa de saber. Cartas, CAM, cartão de tacógrafo, tipo de viatura, disponibilidade. Este artigo mostra como montar esse currículo para o mercado português, com uma caixa de habilitações que podes copiar tal e qual e exemplos de experiência com números.

O que uma transportadora quer saber nos primeiros dez segundos

Quem gere uma frota não lê o teu currículo à procura de qualidades. Lê à procura de respostas a quatro perguntas muito concretas: que categorias de carta tens e até quando são válidas, se tens o CAM em dia, se tens cartão de tacógrafo, e que viaturas já conduziste a sério. Se essas respostas não estiverem visíveis sem procurar, o teu currículo fica para trás mesmo que sejas o melhor motorista da fila.

É por isso que um currículo de motorista não deve começar com um parágrafo sobre responsabilidade e pontualidade. Deve começar com dados. As ofertas para pesados publicadas no Net-Empregos e no Indeed Portugal repetem sempre os mesmos requisitos: carta de categoria C ou C+E, CAM ou código 95, cartão de tacógrafo digital ou disponibilidade para o obter, e um ano de experiência em pesados. Escreve o currículo a responder a essa lista, por essa ordem.

A caixa de habilitações: a secção que decide tudo

Põe este bloco logo a seguir ao nome e ao contacto, antes da experiência. É a secção mais importante do documento e é a que quase ninguém escreve bem. Copia a estrutura e mete os teus dados:

Habilitações profissionais Carta de condução: B, C, C+E, válida até 03/2029 CAM e código 95: válido até 06/2028 Cartão de tacógrafo (condutor): válido até 11/2029 ADR: básico e cisternas, válido até 02/2027 Carta de empilhador: sim Disponibilidade: nacional e ibérico, noites fora

Repara nas datas. Um recrutador que veja "carta C+E" sem validade tem de perguntar. Um recrutador que veja a validade escrita já sabe se te pode meter numa viatura no mês que vem. Se algum destes documentos estiver caducado ou em processo, escreve a verdade, incluindo a data prevista. Aparecer no primeiro dia sem código 95 válido acaba com a relação antes de ela começar.

O CAM e o código 95 explicados como interessa a quem se candidata

O CAM é o certificado de aptidão para motorista e é obrigatório para conduzir profissionalmente pesados de mercadorias e de passageiros. Segundo o IMT, o certificado tem validade de cinco anos, renovável por períodos iguais, e fica averbado na carta de condução sob o código 95 para quem reside em Portugal, ou na carta de qualificação de motorista para os restantes casos. O quadro legal está no Decreto-Lei n.º 126/2009, que transpôs a diretiva europeia da matéria, com as alterações do Decreto-Lei n.º 102-C/2020.

Na prática há dois caminhos, ambos definidos pelo IMT. A formação inicial acelerada, de 140 horas, para quem entra de novo na profissão, e a formação contínua de 35 horas, que é a que renova o certificado no fim dos cinco anos. O IMT recomenda pedir a renovação pelo menos 60 dias antes do fim da validade, e as taxas em vigor são de 60 euros para a inscrição no exame, com emissão do CAM incluída, e 35 euros para o averbamento do código 95 ou emissão da carta de qualificação.

Se estás a fazer a formação neste momento, escreve isso no currículo com a data prevista de conclusão. Muitas transportadoras aceitam candidatos em formação e algumas até a pagam, mas só se souberem.

Resumo profissional: dois exemplos para adaptar

Para quem já anda na estrada:

Motorista de pesados com 9 anos de distribuição nacional e ibérica, carta C+E e CAM válido até 2028. Habituado a semirreboque de lona e a cisterna com ADR, com 6 anos sem sinistro com culpa. Conheço bem os eixos Lisboa, Porto e Vigo e o trabalho com plataformas logísticas. Procuro uma empresa com escalas fixas e noites em casa durante a semana.

Para quem vem de ligeiros e acabou de tirar a carta de pesados:

Motorista com 5 anos de distribuição em veículos ligeiros comerciais na área metropolitana do Porto, com carta C obtida em 2026 e CAM concluído em maio. Conheço rotas urbanas, entregas com prazo apertado e trato direto com clientes. Procuro a primeira função em pesados na distribuição regional, com disponibilidade para começar de imediato.

O segundo exemplo é o que costuma faltar. Quem muda de ligeiros para pesados tende a apagar a experiência anterior por achar que não conta. Conta muito: entregas, prazos, gestão de rota e trato com clientes são exatamente o que uma empresa de distribuição precisa.

Da tarefa vaga ao bullet com números

Este é o exercício que separa o teu currículo do resto do monte. Escreve o que fazias, depois acrescenta viatura, volume e resultado.

Antes:

Condução de camião e entrega de mercadoria.

Depois:

Distribuição nacional em semirreboque de 40 toneladas, com média de 12 pontos de descarga por dia no eixo Lisboa, Setúbal e Algarve, e 4 anos sem sinistro com culpa.

Outro par, para quem faz carga perigosa:

Antes: transporte de produtos químicos.

Depois: transporte ADR classe 3 em cisterna para clientes industriais na zona de Estarreja, com carga e descarga assistida, verificação documental e registo diário no tacógrafo digital.

Se o teu histórico tem meses parados ou passagens curtas por várias empresas, não os escondas com datas vagas. O setor sabe que há empresas que fecham e escalas que mudam. Um mês por explicar levanta mais dúvidas do que uma linha honesta a dizer o que aconteceu.

Competências e equipamento que vale a pena listar

Escreve o que já conduziste e o que já operaste, com nomes concretos. Uma lista de adjetivos não diz nada a quem gere frota.

Viaturas e equipamento: semirreboque de lona, frigorífico, cisterna, basculante, grua, porta-paletes elétrico, empilhador. Operações: estiva e amarração de carga com cintas e barras, controlo de temperatura, carga e descarga em plataforma, verificação documental de CMR e guias. Regulamentação: tempos de condução e descanso, tacógrafo digital e cartão de condutor, ADR, condução defensiva e económica.

Não inventes. Uma entrevista para pesados tem quase sempre uma parte prática ou pelo menos uma conversa técnica com o responsável de tráfego, e o que estiver a mais no papel aparece ali.

Formato, tamanho e foto

O IEFP, na orientação que dá a quem procura emprego no iefponline, recomenda um currículo conciso, fácil de ler e adaptado a cada oferta, com duas páginas A4 como limite razoável. Para motorista, uma página bem organizada chega quase sempre, porque a informação decisiva cabe num terço da folha.

A foto não é exigida por lei em Portugal nem faz diferença nesta função. O que faz diferença é o telemóvel estar certo e o ficheiro chegar em PDF com um nome que se perceba, do género Joao-Ferreira-Motorista-CE.pdf. Muita transportadora pequena recebe currículos por email ou por WhatsApp e imprime para o escritório. Um documento que se lê a preto e branco vale mais do que um design bonito. Se quiseres montar tudo de raiz e sair com um PDF limpo, podes criar o currículo na Laddro.

Onde estão as vagas

O Net-Empregos e o Indeed Portugal continuam a ser os dois sítios onde aparecem mais ofertas de pesados, muitas colocadas por empresas de trabalho temporário que fazem a triagem para transportadoras maiores. Se estás inscrito no centro de emprego, o iefponline permite guardar o currículo e candidatar-te às ofertas por lá. E vale mesmo a pena a candidatura espontânea: nos parques logísticos da Azambuja, de Alverca, da Maia ou de Leça do Balio há empresas que contratam sem nunca publicar anúncio, porque preenchem as vagas com quem apareceu à porta ou foi recomendado por um motorista da casa.

Quanto pedir: o contrato coletivo é o teu ponto de partida

Antes de dizeres um número, sabe qual é a tabela que te aplica. O contrato coletivo entre a ANTRAM e a FECTRANS foi publicado no Boletim do Trabalho e Emprego n.º 9, de 8 de março de 2026, e entrou em vigor a 13 de março, com as cláusulas de expressão pecuniária a produzirem efeitos retroativos a 1 de janeiro de 2026, segundo a própria ANTRAM. Em julho saiu a portaria de extensão n.º 316/2026/1, de 29 de julho, que entrou em vigor a 3 de agosto e estende a tabela salarial às empresas não associadas e aos trabalhadores não sindicalizados, com efeitos desde 1 de abril de 2026.

Traduzindo: mesmo que a empresa não seja associada da ANTRAM e mesmo que não sejas sindicalizado, a tabela aplica-se. Pede o anexo com a tabela antes da entrevista, ou consulta-o no site da FECTRANS, e chega à conversa a saber qual é o mínimo da tua categoria. O salário mínimo nacional para 2026 é de 920 euros, fixado pelo Decreto-Lei n.º 139/2025, de 29 de dezembro, e nesta profissão serve apenas de chão legal, não de referência de mercado.

Depois separa as parcelas, porque é aí que as propostas enganam. A retribuição base, os complementos salariais associados ao tipo de serviço, nacional, ibérico ou internacional, e as diuturnidades são retribuição e contam para o subsídio de férias e para o de Natal. As ajudas de custo diárias e a ajuda de custo TIR pagam despesas de deslocação e não entram nessa conta. Uma proposta de mil e tal euros que só chega lá com ajudas de custo vale menos do que parece, e é uma pergunta legítima a fazer na entrevista: quanto disto é base e quanto é deslocação.

Um currículo de motorista não precisa de ser elaborado. Precisa de mostrar em dez segundos que tens as cartas em dia, o CAM válido, cartão de tacógrafo e horas verdadeiras ao volante. Escreve isso em cima, prova o resto com números, e vais responder a menos anúncios para receberes mais chamadas.

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