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Dicas de CV

Currículo de técnico auxiliar de saúde: exemplo e estrutura

Como fazer o currículo de técnico auxiliar de saúde em Portugal: quantas páginas, certificado do CNQ, resumo pronto a adaptar e bullets de experiência.

8 min de leitura
Illustration for Currículo de técnico auxiliar de saúde: exemplo e estrutura

Há duas formas de te candidatares a técnico auxiliar de saúde em Portugal, e cada uma quer um currículo diferente. Num concurso de uma Unidade Local de Saúde, o teu currículo é pontuado por um júri que tem uma grelha de critérios à frente e conta linha a linha o que lá puseste. Num lar da Misericórdia ou numa ERPI privada, o mesmo ficheiro chega por email a uma diretora técnica que abre dezenas de anexos numa tarde e decide em segundos. Enviar exatamente o mesmo PDF para os dois lados é o erro mais comum de quem procura trabalho nesta área.

Este artigo mostra como montar cada uma das versões, com um resumo de topo pronto a adaptar e exemplos de experiência que podes copiar e ajustar aos teus números.

O que mudou na profissão desde 2024

O Decreto-Lei n.º 120/2023, de 22 de dezembro, criou a carreira especial de técnico auxiliar de saúde no Serviço Nacional de Saúde e definiu o conteúdo funcional da categoria nos anexos I e II. Deixou de ser uma função exercida por assistentes operacionais e passou a ter carreira própria, com um perfil de competências reconhecido.

A qualificação de referência é a do Catálogo Nacional de Qualificações da ANQEP, com o código 729281, Técnico/a Auxiliar de Saúde, de nível 4 do Quadro Nacional de Qualificações. O perfil profissional foi publicado no Boletim do Trabalho e Emprego n.º 32, de 29 de agosto de 2010, e atualizado a 1 de setembro de 2016. Vale a pena leres a lista de atividades desse perfil antes de escreveres o currículo, porque é de lá que sai o vocabulário que os júris reconhecem.

Uma nota que tira ansiedade a muita gente: não ter ainda o certificado do CNQ não te impede de concorrer. O anúncio de recrutamento Ref.ª 20/TAS/2026 da Unidade Local de Saúde Amadora/Sintra, publicado a 9 de março de 2026, prevê expressamente que, na ausência da qualificação de técnico auxiliar de saúde integrada no CNQ, os trabalhadores admitidos terão de obter aprovação num curso de curta duração do CNQ, em regra durante o período experimental. Ou seja, candidata-te à mesma e diz no currículo em que ponto estás da formação.

Uma página ou quatro: depende de quem lê

Esta é a decisão que mais gente erra. A regra portuguesa das duas páginas no máximo é boa para o setor privado e péssima para um concurso público.

O mesmo anúncio da ULS Amadora/Sintra pede o currículo "até ao limite de 4 páginas" e exige, além dele, certificado de habilitações, certificado de qualificação de técnico auxiliar de saúde quando aplicável, certificados dos cursos e ações de formação realizadas e comprovativos da experiência profissional. O método de seleção fixado nesse mesmo anúncio é avaliação curricular e entrevista de seleção, e quem tiver pontuação inferior a 10,0 em qualquer uma das fases fica excluído.

Traduzido: num concurso público, cada formação que omites é pontuação que perdes. Escreve tudo, com datas e horas de formação, mesmo aquelas ações curtas sobre controlo de infeção que te parecem pequenas de mais para contar. Usa as quatro páginas.

Numa candidatura a um lar, a uma ERPI ou a um grupo privado, faz o contrário. Duas páginas, no máximo, com a experiência de cuidados logo no topo e a formação resumida às linhas que interessam à vaga. Ninguém vai somar pontos, alguém vai procurar três coisas: se já fizeste este trabalho, se tens disponibilidade para turnos e se consegues começar depressa.

A estrutura que resiste à avaliação curricular

Para as duas versões, a ordem que funciona é esta:

  1. Nome, telefone, email e concelho de residência. Acrescenta a carta de condução se tiveres, porque em serviço domiciliário e em unidades fora dos centros urbanos é um critério real.
  2. Um resumo de quatro a cinco linhas.
  3. Disponibilidade, dita de forma explícita.
  4. Experiência profissional, da mais recente para a mais antiga.
  5. Formação e certificações, com datas e carga horária.
  6. Habilitações literárias.

A secção da disponibilidade parece estranha num currículo, mas nesta profissão é decisiva. Entre os requisitos obrigatórios, o anúncio da ULS Amadora/Sintra inclui a disponibilidade para trabalhar por turnos de manhã, tarde e noite, incluindo fins de semana e feriados. Se tens essa disponibilidade e não a escreves, estás a deixar quem lê adivinhar. Uma linha resolve: "Disponibilidade total para turnos rotativos, incluindo noites, fins de semana e feriados."

O resumo de topo, já preenchido

Um resumo genérico não vale nada. Este é um modelo com números que tens de substituir pelos teus:

Técnica auxiliar de saúde com qualificação de nível 4 do CNQ concluída em 2025 e três anos de experiência em ERPI, com apoio direto a residentes em situação de grande dependência. Prática consolidada em cuidados de higiene e conforto, transferências e posicionamentos, e acompanhamento de refeições a utentes com disfagia. Habituada a turnos rotativos e ao registo diário de ocorrências. Disponibilidade imediata na área de Setúbal e do Barreiro.

Repara no que este parágrafo faz: diz a qualificação, diz há quanto tempo trabalhas, nomeia técnicas concretas em vez de adjetivos e fecha com disponibilidade e zona geográfica. Quem tem de preencher escalas lê isto e já sabe se te vai ligar.

Se ainda não tens experiência, o resumo muda de eixo e passa a assentar no estágio: "Técnico auxiliar de saúde recém-qualificado (nível 4 do CNQ, 2026), com estágio de 420 horas em serviço de medicina interna, onde acompanhei a equipa de enfermagem nos cuidados de higiene e no transporte de utentes." O estágio da componente prática do curso é experiência, trata-o como tal.

Experiência: três linhas antes e depois

O erro clássico é descrever a função em vez do trabalho. Vê a diferença, com números de exemplo que tens de trocar pelos teus:

Antes

Auxiliar num lar de idosos. Ajudava nos cuidados de higiene e na alimentação dos utentes. Limpeza dos quartos.

Depois

Apoio direto a 24 residentes em ERPI, em turnos rotativos de manhã, tarde e noite. Cuidados de higiene e conforto e apoio nas necessidades de eliminação, sob orientação da enfermeira de serviço. Transferências e posicionamentos com grua e tábua de deslize a residentes com dependência total. Acompanhamento de refeições a seis residentes com disfagia, com registo diário das ingestões. Recolha, triagem e acondicionamento de roupa da unidade e higienização de superfícies segundo os procedimentos internos.

A segunda versão não inventa nada. Usa o vocabulário do próprio perfil profissional da ANQEP, que fala em auxiliar nas necessidades de eliminação e nos cuidados de higiene e conforto de acordo com orientações do enfermeiro, em auxiliar na transferência, posicionamento e transporte do utente, e em assegurar a recolha, transporte, triagem e acondicionamento de roupa da unidade do utente. Quando escreves assim, o júri reconhece as expressões da grelha que tem à frente.

Duas coisas a manter sempre: o número de utentes por quem eras responsável e a expressão "sob orientação do enfermeiro" ou "sob orientação do profissional de saúde". A segunda mostra que percebes os limites da função, e isso conta a teu favor numa entrevista.

Formação e certificados: a secção que dá pontos

Lista cada ação com nome, entidade formadora, ano e carga horária. Numa avaliação curricular, "Formação em controlo de infeção" vale menos do que "Precauções básicas de controlo de infeção, 14 horas, 2025".

Vale a pena teres à mão e mencionares, quando as tiveres: suporte básico de vida, controlo de infeção e higienização, mobilização e transferência de doentes, primeiros socorros, manuseamento de resíduos hospitalares e acompanhamento em fim de vida. Se estás a meio do curso de técnico auxiliar de saúde, escreve o número de UFCD já concluídas e a data prevista de conclusão. Nos lares, o registo criminal atualizado e o boletim de vacinas em dia aparecem com frequência nos requisitos dos anúncios publicados no Indeed Portugal, por isso menciona numa linha que os tens prontos a entregar.

Onde estão mesmo as vagas

No setor público, os concursos saem nos sites das próprias Unidades Locais de Saúde e dos institutos, como o IPO de Lisboa e o IPO do Porto, muitas vezes em PDF, com prazos curtíssimos. O anúncio da ULS Amadora/Sintra dava cinco dias úteis para formalizar a candidatura por email, com referência obrigatória ao número do anúncio no assunto. Cria o hábito de ver essas páginas uma vez por semana e mantém o currículo já atualizado, porque não há tempo para o escrever de raiz quando a vaga aparece.

No setor social e privado, as ofertas concentram-se no iefponline do IEFP, onde a inscrição é necessária para te candidatares à maioria das ofertas, e ainda no Indeed, no Net-Emprego e nas páginas das Misericórdias, das IPSS e dos grupos privados. Muitos lares nunca publicam nada e contratam por candidatura espontânea, por isso vale a pena enviar o currículo diretamente às ERPI do teu concelho.

Se quiseres montar as duas versões a partir da mesma base, podes começar em criar currículo e depois guardar uma variante curta para o privado e uma longa para os concursos.

O que faz uma candidatura ser excluída

O anúncio da ULS Amadora/Sintra é explícito quanto aos motivos de exclusão, e a lista aplica-se, com outras palavras, a quase todo o setor. Ficas de fora se não cumprires os requisitos obrigatórios, se falhares a forma ou o prazo da candidatura, se não compareceres à entrevista ou se prestares falsas declarações, seja por compromisso de honra, seja na avaliação curricular.

Este último ponto merece atenção. Arredondar datas para tapar um período sem trabalho, ou escrever que concluíste um curso que ainda estás a frequentar, não é um detalhe. É motivo de exclusão e, no setor da saúde, os certificados são sempre verificados. Se tens um intervalo no percurso, escreve o que estiveste a fazer e segue em frente.

Antes de carregares em enviar

Confirma cinco coisas. O assunto do email tem a referência do anúncio quando existe. O ficheiro está em PDF e tem o teu nome no nome do ficheiro, não "cv final v3". Todos os documentos pedidos vão em anexo, não só o currículo. A disponibilidade para turnos está escrita a preto no branco. E a experiência está descrita com números de utentes e técnicas concretas, não com adjetivos.

É um trabalho duro e mal pago em muitos sítios, mas é dos poucos em Portugal onde a procura é constante e onde um currículo bem feito muda mesmo o resultado. Numa avaliação curricular, quem escreveu tudo ganha a quem escreveu pouco. Escreve tudo.

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