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Dicas de CV

Currículo em inglês: o CV que as multinacionais em Portugal pedem

Como escrever o currículo em inglês em Portugal: o que tirar do CV português, como traduzir licenciatura e estágio, exemplos para copiar e onde há vagas.

8 min de leitura
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O anúncio está escrito em inglês, o escritório fica em Lisboa, no Porto ou em Braga, e a dúvida aparece logo na primeira linha: envio o currículo em português ou em inglês? A resposta curta é simples. Se o anúncio está em inglês, o currículo vai em inglês. A resposta longa é que traduzir o teu CV português palavra a palavra é a forma mais rápida de te tirares da corrida, porque um CV em inglês não é o mesmo documento noutra língua, é outro documento.

Este guia mostra o que muda, quais são os falsos amigos que denunciam uma tradução automática, e traz secções já preenchidas que podes adaptar ao teu caso.

Quem precisa mesmo de um CV em inglês

Não é só quem quer emigrar. O maior empregador de candidaturas em inglês dentro de Portugal são os centros de serviços partilhados. Segundo o Guia Salarial 2026 da Adecco Portugal dedicado ao setor, o país tem 93 operações ativas, 88 empresas e mais de 30 mil postos de trabalho ligados a estes centros, e 58 deles foram criados desde 2015, ou seja 62 por cento do total existente. São equipas de finanças, compras, apoio ao cliente, recursos humanos e IT que reportam a sedes na Alemanha, na Suécia ou nos Estados Unidos, e onde a língua de trabalho é o inglês a partir do primeiro dia.

Vale a pena perceber uma coisa antes de escreveres: em Portugal, saber inglês não é um argumento de venda. Na edição de 2025 do EF English Proficiency Index, Portugal ficou em 6.º lugar entre 123 países e regiões avaliados, com 612 pontos, bastante acima da média mundial de 488. Toda a gente na fila para aquela vaga tem inglês no currículo. O que te distingue é o que escreves nesse inglês, não o facto de o dominares.

A regra prática funciona bem: a língua do anúncio decide a língua da candidatura. Anúncio em inglês, CV e carta em inglês. Anúncio em português numa empresa com sede em Portugal, CV em português. Em dúvida, vale o inglês, porque o documento passa por mais mãos.

O que sai do currículo português quando ele muda de língua

Aqui está a parte que quase ninguém faz. O currículo português tradicional leva dados que num CV em inglês são um problema. O National Careers Service, o serviço público britânico de orientação de carreira, é explícito na sua página sobre secções do CV: "You should not include your age, your date of birth, whether you're married or your nationality." Fora, portanto, a data de nascimento, o estado civil e a nacionalidade. Fora também, por maioria de razão, o número de contribuinte, o número do cartão de cidadão e a morada completa com código postal. A cidade e o país chegam.

A foto é a decisão mais confusa, porque as fontes oficiais não dizem o mesmo. A plataforma oficial do Europass recomenda, nas suas dicas de preenchimento, que juntes "a professional photograph of yourself". Já as candidaturas para o Reino Unido, a Irlanda e os Estados Unidos são triadas por equipas que treinaram para evitar qualquer elemento que identifique o candidato antes da entrevista, e uma foto atrapalha. O critério que resolve isto na prática: sem foto quando a vaga é para fora, foto opcional e sóbria quando é para o escritório português de uma multinacional e o recrutador que lê é português.

As secções também mudam de nome. O mesmo National Careers Service organiza o CV em contact details, personal statement, work history, education e references. As tuas "Habilitações Literárias" passam a education, a "Experiência Profissional" passa a work history, o teu resumo de topo passa a personal statement ou profile. E o serviço britânico recomenda um tipo de letra claro como Arial, Times New Roman ou Calibri em tamanho 11 ou maior, com duas a três linhas por função, seguindo o método STAR: situação, tarefa, ação, resultado.

Os falsos amigos que denunciam a tradução

Estes erros aparecem em quase todos os CVs traduzidos à pressa e são imediatamente reconhecíveis por quem lê inglês todos os dias.

  • Estágio não é "stage". É internship, ou traineeship se foi um estágio profissional do IEFP.
  • Formação não é "formation". É training, ou education quando falas do percurso académico.
  • Atendimento ao cliente não é "client attendance". É customer service ou customer support.
  • Colaboradores não são "collaborators". São employees, staff ou team members.
  • Empresa raramente é "enterprise". É company.
  • Atualmente não é "actually". É currently.
  • Pretendo não é "I pretend". É I aim to, ou I am looking for.
  • Assisti a uma formação não é "I assisted a training". É I attended a training course.
  • Licenciatura é Bachelor's degree, mestrado é Master's degree, mestrado integrado é integrated Master's degree, com uma nota entre parênteses a dizer que são cinco anos.

Junta a isto o hábito português de começar todas as linhas com "Responsável por". As próprias dicas do Europass pedem o contrário: "Use clear and simple language. Use strong verbs (e.g. 'managed', 'developed', 'increased')." Cada linha da tua experiência deve abrir com um verbo de ação no passado e fechar com um resultado.

Antes e depois de uma linha de experiência

Compara a mesma função escrita das duas maneiras. Primeiro, a tradução literal do português, aquela que sai quando se copia o CV para um tradutor automático:

Responsible for the attendance of clients and resolution of complaints in the customer support department of a multinational enterprise.

Não há dimensão, não há resultado, e há dois falsos amigos na mesma frase. Agora a versão que um recrutador em Lisboa ou em Dublin lê até ao fim:

Handled 60 to 80 customer tickets a day for the Iberian market in Zendesk, cutting average first response time from 24 hours to 6 hours and keeping satisfaction scores above 90 percent.

A fórmula é sempre a mesma: verbo de ação, número, ferramenta, resultado. E os números têm de ser teus. Se não sabes o valor exato, usa uma aproximação honesta como "around 60 tickets a day", porque na entrevista vais ter de explicar cada número que escreveste.

Um exemplo de CV preenchido que podes adaptar

Este é o caso da Ana, quatro anos de apoio ao cliente num centro de serviços em Lisboa, a candidatar-se a uma vaga em inglês no Porto.

Contact details:

Ana Ribeiro Lisbon, Portugal | +351 912 000 000 | [email protected] | linkedin.com/in/anaribeiro

Personal statement:

Customer support specialist with four years in a shared services centre in Lisbon, covering the Iberian market in Portuguese, Spanish and English. Day to day work in Zendesk and Salesforce, with a track record of cutting response times and training new hires. Looking for a senior support role in Porto or hybrid.

Work history:

Customer Support Specialist, Nome da Empresa, Lisbon | 03/2022 to present A 400 person shared services centre for a German industrial group.

  • Handle 60 to 80 tickets a day for Portuguese and Spanish customers.
  • Cut average first response time from 24 hours to 6 hours by rewriting the macro library.
  • Trained 5 new hires during the 2025 expansion of the Iberian desk.

Education:

BSc in Communication Sciences, Universidade Nova de Lisboa | 2016 to 2019 Licenciatura, three year degree. Final grade 16 out of 20 (Portuguese scale of 0 to 20).

Languages:

Portuguese (native), English (C1), Spanish (B2)

Repara em três detalhes. O nome da empresa portuguesa não se traduz, mas ganha uma linha a explicar o que ela é, porque ninguém em Munique conhece o teu antigo empregador. As datas vão em mês e ano, 03/2022, para evitar a confusão entre o formato britânico e o americano. E a média vem sempre com a escala ao lado, porque um 16 sem contexto não diz nada a quem avalia notas de 0 a 100 ou de A a F. Nas línguas, usa os níveis do Quadro Europeu Comum de Referência, de A1 a C2, que é a escala que o Europass adota e que qualquer recrutador europeu entende.

Detalhes finais que fazem diferença

Escolhe entre inglês britânico e inglês americano e mantém a escolha até ao fim: organise ou organize, não os dois no mesmo documento. Para o Reino Unido e a Irlanda o documento chama-se CV, para os Estados Unidos chama-se resume. Guarda em PDF e dá ao ficheiro um nome que se percebe na pasta do recrutador, algo como Ana-Ribeiro-CV.pdf. Não ponhas expectativas salariais no documento, isso é conversa de entrevista.

Sobre referências, o modelo britânico prevê uma secção de references, mas a fórmula "available on request" continua a ser aceite e poupa espaço. Se decidires indicar nomes, avisa as pessoas antes.

Quanto ao Europass, ele continua a fazer sentido em contextos concretos: concursos públicos, candidaturas a instituições europeias e programas de mobilidade. A plataforma oficial em europass.europa.eu é gratuita e permite criar o documento em 31 línguas, segundo o próprio Europass, o que ajuda quem quer ter a mesma informação em português e em inglês. Para uma vaga privada num centro de serviços, um CV moderno e curto continua a funcionar melhor. Se quiseres montar a versão inglesa sem começar de uma página em branco, podes fazê-lo no editor da Laddro e manter as duas versões alinhadas.

Onde estão as vagas em inglês

O LinkedIn concentra a maior parte das vagas de escritório em inglês em Portugal, mas não é o único sítio. O Net-Empregos e o SAPO Emprego publicam muita coisa dos centros de serviços de Lisboa, Porto e Braga, o Landing.jobs e o ITJobs cobrem tecnologia, e o portal EURES dá acesso às ofertas dos outros países da União Europeia.

Vale também registares-te no iefponline, o portal do IEFP. Além de ser a via para as ofertas do serviço público de emprego, permite guardar mais do que um currículo no separador dos teus currículos, que fica disponível para consulta das entidades empregadoras. Na prática, podes ter lá a versão portuguesa e a versão inglesa ao mesmo tempo. O conselho que o próprio IEFP dá aos candidatos é curto e continua certo: elabora o currículo destacando a experiência, os conhecimentos, as competências e as potencialidades.

O teste final antes de enviares

Lê o teu CV em voz alta em inglês. Se tropeçares numa frase, o recrutador também tropeça. Depois pede a alguém que trabalhe em inglês todos os dias para o ler rapidamente e te dizer o que percebeu da tua última função. Se essa pessoa não conseguir explicar o que fazias e com que resultados, o problema não é a tua gramática, é a informação que falta.

Um CV em inglês bem feito não prova que sabes inglês, isso a entrevista trata. Prova que sabes escrever para quem te vai contratar, e essa é a competência que decide a triagem.

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