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Dicas de CV

Currículo de advogado: cédula, áreas de prática e exemplo

Como escrever o currículo de advogado em Portugal: cédula profissional, áreas de prática, bullets com processos reais e o que muda se estiveres em estágio.

8 min de leitura
Illustration for Currículo de advogado: cédula, áreas de prática e exemplo

Há uma coisa que separa a candidatura de um advogado de quase todas as outras: antes de chegar à tua segunda página, quem recruta pode confirmar-te. Abre a Pesquisa de Advogados no portal da Ordem, escreve o nome ou o número de cédula, deixa a caixa «Apenas Activos» marcada e vê o que aparece. Se o currículo disser uma coisa e o registo disser outra, a conversa acaba ali.

Isso muda a forma de escrever. Num currículo de advogado, o que interessa não é convencer, é ser verificável. E há muito menos gente a disputar cada lugar do que se pensa: segundo os dados da Direção-Geral da Política de Justiça divulgados pelo Advocatus em junho de 2026, Portugal tinha 37 842 advogados com inscrição em vigor em 2025, menos 739 do que no ano anterior, e apenas 1 380 estagiários, quando em 2024 eram 1 929. Do outro lado, o Net-Empregos mostrava 149 ofertas na categoria de advogado em setembro de 2026, de contencioso em Lisboa a prática generalista no Porto e a um lugar interno de imobiliário. A procura existe. O que falha, muitas vezes, é o documento.

O cabeçalho é o teu registo, não a tua apresentação

A Pesquisa de Advogados do portal da Ordem procura por Conselho Regional, Cédula, Nome, Localidade, Morada e Código Postal. Dá ao recrutador exatamente esses campos, logo nas primeiras três linhas, e poupas-lhe o trabalho de te ir procurar às cegas. O artigo 187.º do Estatuto da Ordem dos Advogados diz que a cédula profissional é o documento comprovativo da inscrição, por isso é ela que abre o currículo, não uma frase sobre paixão pelo Direito.

Um cabeçalho que funciona:

Mariana Sousa Antunes
Advogada · Cédula n.º 00000L · Conselho Regional de Lisboa
Inscrição em vigor desde março de 2019
Lisboa · 9XX XXX XXX · [email protected]
Contencioso cível · Arrendamento urbano · Insolvência e recuperação de empresas

A data de inscrição faz um trabalho silencioso mas importante: é ela, e não a data da licenciatura, que diz há quantos anos exerces. Muitos anúncios pedem anos de exercício efetivo, e quem lê subtrai mentalmente essas duas datas em dois segundos.

Advogado, advogado estagiário e jurista não são sinónimos

É o erro que mais cedo elimina uma candidatura. Se és licenciado em Direito mas não tens inscrição em vigor, não és advogado, és jurista, e um escritório percebe isso na primeira consulta ao registo.

Para quem está em estágio, a regra é ainda mais clara. O artigo 196.º, n.º 3, do Estatuto exige que o advogado estagiário indique, em qualquer ato em que intervenha, «apenas e sempre esta sua qualidade profissional». Escrever «Advogada» no topo quando ainda estás a meio do estágio não é um arredondamento simpático, é um problema deontológico que o teu futuro patrono vai notar. Escreve «Advogada estagiária» e usa o espaço que ganhas para mostrar o que já fazes.

O mesmo vale para solicitadores: são uma profissão distinta, com a sua própria ordem, e trocar os títulos num currículo jurídico é o tipo de detalhe que ninguém perdoa.

Três áreas de prática, não doze

Um currículo que anuncia civil, penal, laboral, fiscal, família, insolvências, contraordenações e propriedade intelectual está a dizer que ainda não escolheu nada. Os escritórios portugueses organizam-se por áreas e contratam para uma delas.

Escolhe duas ou três, escreve-as no cabeçalho, e depois prova cada uma com processos. Se te candidatas a um lugar de contencioso, a linha de imobiliário pode descer para o fim. Se te candidatas a um escritório de laboral, a tua experiência em despedimentos coletivos sobe para o primeiro bullet. É o mesmo currículo com a ordem trocada, e demora cinco minutos.

Escreve processos, não funções

A maioria dos currículos jurídicos descreve tarefas que qualquer advogado faz. O que distingue é o tipo de processo, o tribunal e o resultado. Compara estes dois bullets, inventados só para veres a diferença:

Antes: «Elaboração de peças processuais e acompanhamento de clientes em processos cíveis.»

Depois: «Contencioso cível e arrendamento: carteira média de 35 processos em simultâneo, do requerimento inicial ao trânsito em julgado, com audiências nos juízos locais cíveis de Lisboa e Sintra; 12 ações de despejo instauradas através do Balcão Nacional do Arrendamento, sete resolvidas por acordo antes da audiência final.»

E o mesmo do lado societário:

Antes: «Apoio em operações societárias e contratos.»

Depois: «Societário: due diligence legal em seis operações de aquisição de participações sociais no retalho e no imobiliário, redação de contratos de compra e venda e de acordos parassociais, registo das alterações na Conservatória do Registo Comercial.»

Nenhum dos dois «depois» é mais comprido do que três linhas. A diferença é que o segundo diz ao sócio que te lê qual é a tua rotina real e onde te pode pôr na segunda-feira.

Se ainda estás em estágio, o currículo tem de dizer o que já podes fazer

O estágio mudou muito e nem todos os escritórios acompanharam. A Lei n.º 6/2024, de 19 de janeiro, alterou o Estatuto e o artigo 195.º, n.º 2, passou a dizer que o estágio «tem a duração máxima de 12 meses, contados desde a data da inscrição». O mesmo artigo, no n.º 9, substituiu a antiga prova por um trabalho que demonstre o conhecimento das regras deontológicas e um relatório final certificado pelo patrono.

Isto tem duas consequências práticas para quem escreve um currículo agora.

A primeira: o teu período de estágio é curto, por isso cada diligência conta. O artigo 196.º, n.º 1, dá ao estagiário competência para praticar todos os atos da competência dos solicitadores e para exercer consulta jurídica sob orientação do patrono, e o n.º 2 permite os restantes atos próprios da profissão desde que efetivamente acompanhado. Escreve isso em concreto: quantas audiências assististe, que peças redigiste, em que juízos, em que áreas.

A segunda: o patrono é uma credencial. O artigo 192.º, n.º 2, do Estatuto só permite aceitar a direção do estágio a advogados com pelo menos cinco anos de exercício efetivo da profissão e sem punição disciplinar superior à de multa. Nomear o teu patrono e o escritório dá ao leitor uma referência que ele provavelmente conhece.

Vale a pena saberes ainda que o artigo 195.º, n.º 7, garante ao estagiário, sempre que o estágio implique prestação de trabalho, remuneração não inferior à remuneração mínima mensal garantida acrescida de 25 % do seu montante, e que o n.º 8 presume que o estágio implica essa prestação. Não é matéria de currículo, mas é matéria de entrevista.

E há o custo, que ninguém avisa a tempo: o Conselho Regional de Lisboa cobra 500 euros de emolumento de inscrição, pagáveis no ato, e 450 euros no encerramento do processo de formação, além de exigir comprovativo de seguro de acidentes pessoais e de responsabilidade civil profissional com capital mínimo de 50 000 euros.

As escalas do acesso ao direito valem mais do que parecem

Para um advogado com pouca antiguidade, a inscrição no Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais é, muitas vezes, a única fonte de tempo de tribunal a sério. As escalas são geridas pela Ordem através do SinOA, e o Vademecum do Advogado Inscrito no Sistema de Acesso ao Direito explica que o sistema corre duas listas distintas, a das escalas de prevenção e a das presenciais, com reposicionamento automático conforme as intervenções de cada advogado.

No currículo, isso traduz-se numa linha honesta e muito concreta:

«Inscrito no Sistema de Acesso ao Direito desde 2022. Nomeações regulares em escalas de prevenção no Tribunal Judicial da Comarca de Setúbal: primeiros interrogatórios de arguido detido, defesa em processo sumário e patrocínio em processos de regulação das responsabilidades parentais.»

Quem contrata júniores lê isto e percebe que já estiveste sozinho em frente a um juiz. Vale mais do que meia página de competências genéricas.

Formato: duas páginas, sem enfeites

O conselho da Michael Page Portugal é o padrão do mercado e aplica-se bem ao Direito: «Seja breve, não ultrapasse as duas páginas» e «Evite detalhes pessoais supérfluos como a idade, religião e género». Num currículo jurídico, duas páginas chegam mesmo a quem tem quinze anos de exercício, desde que os processos antigos sejam resumidos numa linha por escritório.

O que deve mesmo lá estar, além das áreas e dos processos:

  • Formação: licenciatura e mestrado com a instituição e o ano; pós-graduações são levadas a sério em Portugal, sobretudo em fiscal, laboral e contencioso, por isso indica a entidade formadora.
  • Ferramentas: Citius, SITAF, Balcão Nacional de Injunções, Balcão Nacional do Arrendamento e a plataforma de gestão do escritório que usas. É informação banal para ti e diferenciadora para quem contrata.
  • Línguas: inglês jurídico com nível real, não «fluente» por defeito. Em sociedades com clientes estrangeiros, esta linha decide entrevistas.

Guarda a história longa para a carta de apresentação, que no Direito ainda é lida.

Onde enviar, e como

O Net-Empregos é onde está o volume, e em setembro de 2026 tinha anúncios de escritórios em Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Faro e Setúbal. O LinkedIn é onde estão as sociedades grandes e os departamentos jurídicos internos. Alguns escritórios recrutam estagiários através das medidas de estágio do IEFP, e esses anúncios aparecem identificados como tal.

Mas na advocacia portuguesa a candidatura espontânea funciona melhor do que na média do mercado, porque muitos escritórios pequenos nunca chegam a publicar anúncio. Se vais por aí, vale a pena preparares o envio com cuidado, como explicamos no artigo sobre candidatura espontânea.

A lista de verificação antes de enviar

  • A cédula e o conselho regional estão nas três primeiras linhas.
  • O título que usas corresponde exatamente à tua inscrição.
  • Há no máximo três áreas de prática e cada uma tem processos por baixo.
  • Cada bullet nomeia o tipo de processo ou o tribunal, não só a tarefa.
  • O ficheiro vai em PDF, com o teu nome e a palavra currículo no nome do ficheiro.
  • Reordenaste as áreas para o anúncio a que te candidatas.

Se quiseres montar tudo isto sem lutar com margens e tabulações, podes criar o teu currículo num modelo já pensado para ser lido por pessoas e por sistemas de triagem. O trabalho difícil, esse, é escolher que processos contas.

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