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Dicas de CV

Currículo de agente imobiliário: o que tens de provar

Como fazer o currículo de agente imobiliário em Portugal: a licença AMI é da empresa, por isso o CV tem de provar angariações, escrituras e zona.

8 min de leitura
Illustration for Currículo de agente imobiliário: o que tens de provar

Quem quer entrar na mediação imobiliária em Portugal faz quase sempre a mesma pergunta: que licença é preciso tirar? A resposta incomoda muita gente. Nenhuma. A licença não é tua, é da empresa.

O artigo 4.º da Lei n.º 15/2013, de 8 de fevereiro, diz que o exercício da atividade de mediação imobiliária depende de licença concedida pelo regulador, hoje o IMPIC, à empresa, e não à pessoa que atende o cliente. Tu, enquanto consultor, entras nessa lei mais à frente, no artigo 25.º, que apenas obriga os colaboradores a andar em serviço com um cartão de identificação emitido pela própria mediadora, com o teu nome, a tua fotografia atualizada e a identificação da empresa emissora.

Isto muda tudo no teu currículo. Num enfermeiro há uma cédula, num advogado há um registo público onde qualquer pessoa confirma a inscrição. Em ti não há nada disso. Não existe uma entidade externa que confirme que és bom a vender casas. O único documento que carrega essa prova é o currículo, e por isso ele tem de ser construído como prova, não como apresentação.

Quem está do outro lado a ler

Vale a pena perceber a quem escreves. O relatório de análise económico-financeira das empresas de mediação imobiliária do IMPIC relativo ao exercício de 2024, editado em outubro de 2025, partiu de um universo de 10 286 empresas detentoras de licença de mediação a 31 de dezembro de 2024. Das 7 184 sobre as quais conseguiu obter dados, cerca de 91 por cento eram microempresas, com uma média de 3,7 trabalhadores nos quadros.

Traduzido: na esmagadora maioria dos casos, quem abre o teu currículo é o dono da agência, entre visitas, no telemóvel. Não há departamento de recursos humanos, não há triagem em duas fases, não há paciência para três páginas de adjetivos. O mesmo relatório mostra que a Área Metropolitana de Lisboa concentra 46 por cento das microempresas e as duas únicas grandes empresas identificadas, o que explica por que motivo um currículo enviado para Lisboa pode passar por um processo formal e o mesmo currículo enviado para Viseu vai direto ao dono.

Procura também não falta. No Net-Empregos, a pesquisa por consultor imobiliário mostrava 488 ofertas em setembro de 2026, de Vila Real a Peniche, passando por Vila Nova de Gaia e Óbidos. O problema nunca é o número de vagas. É que quase todos os currículos que chegam a essas vagas dizem exatamente a mesma coisa.

Diz se eras técnico de mediação ou angariador

A lei distingue dois papéis dentro da agência e quase ninguém os usa no currículo, apesar de serem a linguagem que o recrutador do setor fala.

O artigo 23.º da Lei n.º 15/2013 define os técnicos de mediação imobiliária como os colaboradores que desempenham, em nome da empresa, as funções de mediação. O artigo 24.º define os angariadores imobiliários como os colaboradores que coadjuvam esses técnicos, executando as tarefas necessárias à preparação e ao cumprimento dos contratos de mediação celebrados pela empresa. E o artigo 16.º obriga a que o próprio contrato de mediação identifique o angariador que eventualmente tenha colaborado na sua preparação.

Ou seja: o teu nome já esteve escrito em contratos. Diz isso. Uma linha do género "angariador imobiliário identificado em contrato de mediação, nos termos do artigo 16.º da Lei n.º 15/2013" vale mais do que meia página de "forte orientação para o cliente", porque mostra que conheces o enquadramento em que a agência trabalha e que já operaste dentro dele.

Os números que a mediadora consegue ler

Este é o ponto em que a maioria dos currículos do setor falha. Compara.

Assim não:

Responsável pela angariação e venda de imóveis, acompanhamento de clientes e realização de visitas.

Assim sim:

Angariei 34 imóveis em 14 meses nos concelhos de Matosinhos e Maia, 21 em regime de exclusividade. Fechei 11 escrituras e um volume transacionado de 1,9 milhões de euros. Tempo médio entre angariação e CPCV: 74 dias.

Os números do segundo exemplo são ilustrativos e servem para mostrares a forma, não o valor. Substitui-os pelos teus, mesmo que sejam mais baixos. Três escrituras honestas com a zona identificada convencem mais do que uma frase vaga sobre carteiras de luxo.

Escolhe métricas que existam mesmo no teu dia a dia: angariações por mês, percentagem em exclusividade, visitas por angariação, contratos-promessa assinados, escrituras concluídas, volume transacionado, tempo médio de venda, angariações vindas de recomendação de clientes anteriores. Se vieste do arrendamento, conta contratos celebrados e taxa de ocupação da carteira.

Há aqui uma distinção que o setor leva a sério e convém respeitares. O artigo 19.º da mesma lei diz que a remuneração da empresa é devida com a conclusão e perfeição do negócio, ou na fase do contrato-promessa quando o contrato de mediação o previr. Angariar não é vender. Um currículo que soma angariações e escrituras na mesma linha denuncia logo que a pessoa nunca viu uma comissão cair.

Zona, carta de condução e viatura no topo da página

Duas coisas que parecem secundárias e são eliminatórias neste setor.

A primeira é a zona. A mediação imobiliária é um negócio de concelho e de freguesia. Escreve à cabeça os concelhos que conheces e onde tens rede, não o distrito inteiro. "Consultor com carteira ativa em Almada, Seixal e Barreiro" diz alguma coisa. "Consultor na zona de Lisboa" não diz nada.

A segunda é a mobilidade. Um anúncio da rede RE/MAX em Parede, publicado no seu portal de recrutamento, lista entre os requisitos "Fluência verbal em Português (obrigatório)" e "Carta de condução e viatura própria (obrigatório)". Um anúncio da Tamiris Global para consultores imobiliários no Porto, publicado a 7 de junho de 2026 e sincronizado a partir do Net-Empregos, repete "Carta de condução e viatura própria" e acrescenta "Experiência comprovada na área imobiliária (obrigatório)" e "Literacia digital: gestão de CRM, portais imobiliários e redes sociais". Se tens carta e carro, isso vai na primeira linha do bloco de contactos, não escondido no fim entre os hobbies.

Ferramentas e portais: nomeia-os todos

"Literacia digital" é a forma educada de dizer que a agência não te quer ensinar a publicar um imóvel. Uma linha com os nomes concretos resolve isto em cinco segundos de leitura.

Nomeia o CRM que usaste, mesmo que seja o da rede anterior, e os portais onde publicaste e geriste leads: idealista, Imovirtual, Casa SAPO, SUPERCASA. Acrescenta o que sabes fazer com media, porque hoje faz parte do trabalho: fotografia de interiores, planta, visita virtual, vídeo curto para redes sociais. Se já fizeste o dossiê documental de um imóvel, diz isso pelo nome: caderneta predial, certidão permanente, licença de utilização, certificado energético, ficha técnica de habitação. É a parte do trabalho que separa quem faz visitas de quem leva um processo até ao notário.

Recibos verdes e comissões: escreve isso à frente

O anúncio da RE/MAX em Parede inclui uma declaração que o candidato tem de aceitar: "Compreendo que esta atividade não inclui salário fixo, sendo a remuneração baseada em comissões". A Tamiris Global anuncia "Remuneração atrativa baseada em comissões sem limite de crescimento". Este é o normal do setor, não a exceção.

Não escondas o modelo em que trabalhaste. A alínea e) do n.º 1 do artigo 20.º da Lei n.º 15/2013 obriga as empresas a conservar atualizado um arquivo de todos os contratos de trabalho e de prestação de serviços celebrados quer com técnicos de mediação, quer com angariadores. As duas formas são legais e ambas constam dos arquivos da agência. Escreve claramente se estiveste em contrato de trabalho ou a recibos verdes, e em que período.

Quem passou anos como prestador de serviços tem aqui um argumento que raramente usa: geriu a própria atividade, os próprios custos e a própria carteira. Diz isso em números de gestão, como o valor anual de comissões faturadas, e não como queixa.

Uma nota sobre transparência. O artigo 16.º exige que o contrato de mediação indique as condições de remuneração da empresa, em termos fixos ou percentuais, a forma de pagamento e a taxa de IVA aplicável. Saber explicar isto a um proprietário sem hesitar é uma competência real. Vale uma linha no currículo.

Resumo de topo pronto a adaptar

Consultor imobiliário com 4 anos em mediação residencial nos concelhos de Loures e Odivelas, a recibos verdes numa agência com licença AMI própria. 34 angariações no último ano, 21 em exclusividade, 11 escrituras e 1,9 milhões de euros transacionados. Trato do processo do início ao fim, da avaliação e do dossiê documental até ao acompanhamento da escritura. Carta de condução e viatura própria. Português nativo, inglês e francês de trabalho.

Poucas linhas, factos verificáveis, zero adjetivos gratuitos. Troca os números pelos teus e já ficas à frente da pilha de currículos que chega a uma agência.

Uma última verificação antes de enviar: confirma a mediadora a que te candidatas no registo público do IMPIC, que permite pesquisar por Nº Licença, NIPC, Denominação, Código Postal, Localidade, Distrito e Concelho. Leva dois minutos e evita que entregues a tua carteira de contactos a quem não está licenciado para receber comissões.

Formato: duas páginas no máximo

O guia oficial de preenchimento do CV Europass, publicado pelo Centro Nacional Europass em Portugal na edição de 2024, avisa logo no início que "por norma os empregadores despendem menos de 1 minuto com a análise de CVs para efetuar a primeira triagem dos candidatos". Numa agência de três pessoas esse minuto é ainda mais curto.

Uma página se tens até cinco anos de setor, duas se tens mais. O Europass propriamente dito só quando o anúncio o pedir, o que na mediação privada praticamente nunca acontece. Envia sempre em PDF, com o nome do ficheiro a incluir o teu nome e a função, e escreve no assunto do email a zona onde queres trabalhar. Se precisares de montar a estrutura do zero, podes fazê-lo em criar currículo e depois adaptar cada secção ao que está acima.

Os erros que fazem o teu CV parecer o de toda a gente

Falar de imóveis de luxo sem dizer quantos vendeste. Escrever "zona de Lisboa" em vez de nomear concelhos. Omitir se tens carta e carro. Listar as agências por onde passaste sem indicar a licença AMI de cada uma, quando é a informação que dá credibilidade imediata a quem lê. Somar angariações e vendas no mesmo número. E o mais comum de todos: começar o currículo com um parágrafo sobre paixão pelo imobiliário, quando a pessoa do outro lado só quer saber quantas escrituras fizeste e em que freguesias.

Na mediação imobiliária não há carteira profissional que fale por ti. Há o que conseguires provar em duas páginas.

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