Currículo de analista de dados: exemplo, competências e portefólio
Como fazer o currículo de analista de dados em Portugal: as duas famílias de anúncios, competências técnicas, resumo pronto a adaptar e portefólio local.
Laddro Team

Em Portugal, "analista de dados" é o mesmo título para dois empregos muito diferentes, e é por isso que tanta gente envia o currículo errado.
Olha para dois anúncios reais publicados este ano no Indeed Portugal. Um deles, da FLM em Lisboa, colocado a 20 de agosto de 2026, pede "bons conhecimentos de Excel ou Google Sheets", capacidade de interpretar informação numérica e diz que "conhecimentos de ferramentas de visualização de dados serão valorizados", com uma remuneração indicada de 2 400 a 2 900 euros por mês. O outro, da FCCN, a unidade de serviços digitais para a educação da AGSE, publicado a 27 de março de 2026, pede domínio de Python, SQL e R, experiência em Spark, Databricks, Hadoop e Kafka, plataformas cloud com MLOps e ainda nomeia certificações à cabeça, da Microsoft PL-300 à Google Cloud Professional Data Engineer.
O mesmo título. Dois currículos completamente distintos. Este artigo mostra como montar cada um deles, com um resumo de topo pronto a adaptar e exemplos de experiência que podes copiar e ajustar aos teus números.
Descobre primeiro em qual dos dois anúncios estás
Antes de escreveres uma linha, lê o anúncio de cima a baixo e procura o verbo dominante.
Se o texto fala em relatórios periódicos, acompanhar indicadores, atualizar folhas de cálculo e apoiar equipas na preparação de informação para decisões operacionais, como no anúncio da FLM, estás perante um lugar de reporting e análise de negócio. Quem lê o teu currículo é quase sempre um responsável de área, não um engenheiro. O que quer ver é que percebes o negócio, que entregas a tempo e que sabes explicar um número a quem não gosta de números.
Se o texto fala em pipelines, governança da informação, modelos supervisionados e não supervisionados, deployment e monitorização, como no anúncio da FCCN, estás num lugar técnico. Aí o currículo passa primeiro por alguém da equipa de dados, que vai procurar ferramentas concretas e evidência de que já puseste alguma coisa a correr em produção.
Muita gente escreve um currículo a meio caminho, com jargão técnico a mais para o primeiro tipo de vaga e projetos a menos para o segundo. Fica sem nenhuma das duas.
Formato: uma página no privado, e o Europass só quando o pedem
O guia oficial de preenchimento do CV Europass, publicado pelo Centro Nacional Europass em Portugal na edição de 2024, avisa logo no início que "por norma os empregadores despendem menos de 1 minuto com a análise de CVs para efetuar a primeira triagem dos candidatos". Escreve para esse minuto.
Para vagas em empresas privadas, faz uma página se tens até cerca de cinco anos de experiência e duas se tens mais. O Guia de Apoio à Procura de Emprego do IEFP diz a mesma coisa por outras palavras: o currículo deve ser conciso, transmitir muita informação em poucas palavras, usar frases curtas e deixar espaço em branco à volta do texto e entre secções para facilitar a leitura. Não é decoração, é o que permite a alguém varrer a página em segundos.
O Europass tem lugar quando o anúncio o pede expressamente ou quando te candidatas a programas de mobilidade da União Europeia. Em concursos do setor público português também aparece com frequência. Fora desses casos, o formato tabelar do Europass gasta demasiado espaço com rótulos e deixa pouco para aquilo que interessa num lugar de dados: o que construíste e que efeito teve. Se quiseres perceber melhor quando vale a pena cada um, temos um artigo dedicado a Europass ou currículo moderno.
Quanto à fotografia, o guia Europass trata-a como opcional e limita-se a recomendar que, se a incluíres, uses uma imagem atualizada, em formato jpg e com fundo branco ou neutro. Em equipas de dados em Lisboa e no Porto, sobretudo nas que recrutam em inglês, é cada vez mais comum não a pôr.
Competências técnicas: agrupa pelo que fazes com elas
A lista corrida é o erro mais repetido nos currículos desta área. Uma linha com quinze ferramentas separadas por vírgulas não diz a ninguém o que sabes fazer.
Assim não:
Competências: Excel, SQL, Power BI, Python, Tableau, Google Analytics, VBA, Looker, BigQuery, Pandas, Git, Jira.
Assim sim:
Consulta e modelação de dados: SQL (PostgreSQL, SQL Server), modelação dimensional, dbt em ambiente de equipa Visualização e reporting: Power BI (DAX, Power Query), Looker Studio, dashboards para quatro direções de negócio Análise e automação: Python (Pandas, NumPy) para limpeza e cruzamento de ficheiros, Excel avançado com Power Query Cloud e versionamento: BigQuery, Git, controlo de versões em repositório partilhado
A segunda versão ocupa quase o mesmo espaço e responde a uma pergunta que a primeira deixa no ar: em que contexto é que usaste aquilo. Se não usas uma ferramenta há três anos, tira. Ninguém te agradece por uma linha de VBA que já não sabes escrever.
Resumo de topo: dois exemplos prontos a adaptar
O bloco de três ou quatro linhas no cimo da página é o que decide se continuam a ler. Escreve um para cada família de anúncio.
Para um lugar de reporting e análise de negócio:
Analista com quatro anos em reporting comercial no retalho alimentar. Construo e mantenho os dashboards de vendas e stock de uma rede de 38 lojas em Power BI, com atualização diária automatizada. Reduzi de dois dias para quatro horas o fecho do relatório mensal da direção comercial. Licenciatura em Gestão pelo ISCTE.
Para um lugar técnico numa equipa de dados:
Analista de dados com três anos em Python e SQL numa plataforma de e-commerce com 1,2 milhões de sessões por mês. Responsável pelos pipelines de ingestão em BigQuery e pelos modelos de atribuição de canal usados pela equipa de marketing. Certificação Microsoft PL-300. Mestrado em Métodos Quantitativos pela NOVA IMS.
Repara no que ambos têm: um número que dá escala ao trabalho, uma ferramenta concreta e um resultado. Nenhum deles diz que és uma pessoa orientada para resultados. Mostra, e poupa a linha.
Experiência: o número tem de estar no bullet
Esta é a diferença entre um currículo que passa e um que não passa, e não custa nada corrigir.
Antes:
Responsável pela elaboração de relatórios mensais para a direção comercial e pelo tratamento de dados provenientes de vários sistemas.
Depois:
Substituí sete relatórios em Excel enviados por email por um dashboard único em Power BI consultado por 22 pessoas das áreas comercial e logística; o fecho mensal passou de dois dias de trabalho para quatro horas.
Cruzei os dados de vendas do ERP com os do sistema de e-commerce, o que expôs 1 400 referências com preço divergente entre canais e permitiu corrigi-las antes da campanha de Natal.
A primeira versão descreve uma função. As duas seguintes descrevem o que mudou por teres lá estado. Não precisas de números impressionantes, precisas de números verdadeiros. "22 pessoas" funciona tão bem como "22 000 utilizadores", porque o que se lê é a capacidade de medir o próprio trabalho.
Há aqui uma segunda razão, e vem das estatísticas oficiais. Segundo o Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação nas Empresas do INE, divulgado a 21 de novembro de 2024, 7,4% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço recrutaram ou tentaram recrutar especialistas em TIC em 2023, e metade dessas empresas, 50,5%, teve dificuldade em preencher esses lugares. A dificuldade é real, mas não significa que qualquer currículo serve. Significa que quem lê está a tentar perceber depressa se és capaz de fazer o trabalho, e bullets com números são a forma mais rápida de lho dizer.
Portefólio: esquece o Titanic, usa dados portugueses
Quase toda a gente que sai de um curso de dados tem os mesmos três projetos no GitHub: o naufrágio do Titanic, as flores do dataset Iris e a previsão de preços de casas em Boston. Quem recruta já os viu mil vezes e não aprende nada contigo ao olhar para eles.
Usa dados daqui. O portal dados.gov.pt agrega conjuntos abertos da administração pública portuguesa, o INE publica séries por concelho, a Pordata organiza indicadores municipais e a Câmara Municipal de Lisboa tem o seu próprio portal de dados abertos. Um painel sobre a evolução dos alojamentos locais por freguesia em Lisboa, ou sobre a sinistralidade rodoviária por concelho, diz muito mais sobre ti do que mais uma regressão logística sobre passageiros de 1912.
No currículo, cada projeto merece três linhas no máximo: o que perguntaste, com que dados, e o que descobriste. O link vai a seguir. Se o repositório não tiver um README em português ou inglês a explicar isso mesmo, ninguém abre o notebook.
Certificações e o caminho para quem não tem licenciatura
Vale a pena nomear as certificações exatamente como os anúncios portugueses as escrevem. O anúncio da FCCN citado acima lista a Microsoft PL-300 para Power BI, a DP-100 para programação e estatística, a Databricks Certified Data Engineer, a Google Cloud Professional Data Engineer e a Azure AI Engineer Associate. Se tens uma delas, põe a designação completa e o ano, não a abreviatura interna.
E se não tens licenciatura? O próprio anúncio da FCCN aceita "formação técnica profissional relevante e comprovada" em alternativa ao grau. Há ainda um caminho formal pouco conhecido: entre os referenciais de nível 5 disponíveis para Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências está o de Técnico/a Especialista de Gestão de Informação e Ciência dos Dados, integrado no Catálogo Nacional de Qualificações. Serve para transformar em certificado aquilo que já aprendeste a trabalhar, e no currículo ocupa uma linha na secção de formação.
Onde te candidatas
O ITJobs e a Landing.jobs concentram as vagas técnicas em Lisboa e no Porto. O Indeed Portugal apanha o resto do mercado, incluindo os lugares de reporting em empresas que não se consideram tecnológicas e que muitas vezes pagam bem. O LinkedIn serve sobretudo para que te encontrem, e vale a pena manter o perfil alinhado com o currículo.
Para o setor público há dois canais próprios: a Bolsa de Emprego Público, em bep.gov.pt, e os procedimentos concursais publicados pelas próprias entidades. E não te esqueças do iefponline: o IEFP é explícito de que a elaboração do currículo "não só é fundamental para encontrar emprego, como também é obrigatório para poder aceder a muitos serviços, designadamente candidatura direta a ofertas de emprego". Sem currículo submetido na plataforma, não te consegues candidatar às ofertas que lá estão.
Antes de enviares
Guarda em PDF com um nome que se perceba, do género Ana-Silva-Analista-Dados.pdf. Confere que o link do GitHub ou do portefólio abre numa janela anónima. Lê o anúncio outra vez e garante que as três ferramentas que ele nomeia aparecem no teu currículo com as mesmas palavras, desde que sejam verdade. E manda-o a alguém que não trabalhe com dados: se essa pessoa conseguir dizer-te em voz alta o que tu fazes depois de ler a primeira metade da página, está pronto.
Se quiseres montar a estrutura sem começar de uma folha em branco, podes fazê-lo no editor da Laddro.