Currículo de eletricista: exemplo, DGEG e o que as empresas pedem
Exemplo de currículo de eletricista em Portugal: inscrição na DGEG, níveis 2 e 4, título ITED da ANACOM e bullets com números que passam na triagem inicial.
Laddro Team

Há obra a mais e eletricistas a menos. Quem anda em instalações elétricas em Lisboa, no Porto, em Setúbal ou à volta de Sines já reparou que as empresas instaladoras andam a ligar para toda a gente. O estudo Escassez de Talento 2025 da ManpowerGroup confirma o ambiente: 84 por cento dos empregadores em Portugal dizem ter dificuldade em atrair o talento qualificado de que precisam, um valor que coloca o país em terceiro lugar mundial, atrás da Alemanha com 86 por cento e de Israel com 85 por cento, contra uma média global de 74 por cento.
Mesmo com este cenário, há eletricistas com dez anos de trabalho feito a enviar candidaturas e a ficar sem resposta. O problema quase nunca é a experiência. É o currículo não dizer, logo nas primeiras linhas, aquilo que quem recruta precisa de saber antes de te pôr numa obra. Este artigo mostra como montar esse documento para o mercado português, com uma caixa de certificações que podes copiar tal e qual e exemplos de experiência escritos com números.
O que a empresa instaladora quer saber nos primeiros dez segundos
Quem gere equipas de instalação não lê o teu currículo à procura de qualidades. Lê à procura de quatro respostas muito concretas: se estás inscrito na DGEG e em que nível, que tipo de instalações já executaste a sério, se tens título profissional ITED, e se tens carta e disponibilidade para deslocações. Se isto não estiver visível sem ter de procurar, a candidatura fica para trás mesmo que sejas o melhor profissional da lista.
É por isso que um currículo de eletricista não deve abrir com um parágrafo sobre rigor e espírito de equipa. Deve abrir com dados. Os anúncios publicados no Net-Empregos, no Sapo Emprego e no Indeed Portugal repetem os mesmos requisitos com uma monotonia útil: inscrição na DGEG, experiência em baixa tensão, leitura de esquemas, carta de condução de categoria B e disponibilidade para trabalhar em obra fora da zona de residência. Escreve o currículo a responder a essa lista, por essa ordem.
A caixa de certificações, a secção que decide a triagem
Põe este bloco logo a seguir ao nome e aos contactos, antes da experiência. É a secção mais importante do documento e é a que quase ninguém escreve bem. Copia a estrutura e mete os teus dados:
Qualificações e títulos profissionais Inscrição na DGEG: técnico responsável pela execução, nível 2, desde 2019 Qualificação: Técnico de Instalações Elétricas, nível 4, concluído em 2023 Título ITED da ANACOM: instalador, atualização feita em 2024 Formação de segurança: trabalhos em tensão e trabalhos em altura, 2025 Carta de condução: categoria B, viatura própria Disponibilidade: obra em todo o distrito de Lisboa e Setúbal, deslocações semanais
Repara nas datas. Um responsável de obra que vê "inscrito na DGEG" sem nível nem ano tem de telefonar para saber o que podes assinar. Se vir o nível e a data, já sabe se te pode alocar a um cliente na semana seguinte. Se alguma formação estiver a decorrer, escreve isso mesmo, com a data prevista de conclusão. Muitas empresas aceitam candidatos em formação e algumas pagam-na, mas só se souberem que existe.
A inscrição na DGEG explicada como interessa a quem se candidata
A Direção-Geral de Energia e Geologia é quem regula esta profissão. O quadro legal está na Lei n.º 14/2015, de 16 de fevereiro, que aprova os requisitos de acesso e de exercício da atividade das entidades e dos profissionais responsáveis pelas instalações elétricas. A DGEG separa a responsabilidade técnica em três âmbitos: projeto, execução e exploração. Quem se candidata a lugares de eletricista de obra costuma precisar do âmbito de execução.
Para o projeto, a DGEG exige engenheiro eletrotécnico ou engenheiro técnico de energia e sistemas de potência, inscrito na respetiva ordem profissional. Para a execução e a exploração entram também os profissionais com qualificação obtida em cursos do Catálogo Nacional de Qualificações que integrem unidades de formação em instalações elétricas. Os dois cursos que hoje dão acesso a essa inscrição são Técnico de Instalações Elétricas e Técnico de Eletrotecnia, ambos de nível 4 do Quadro Nacional de Qualificações.
Os centros de formação certificados pela DGEG, como o CENFIM, resumem assim a diferença entre os dois patamares. Com o nível 2 podes inscrever-te como responsável pela execução de instalações elétricas de serviço particular de baixa tensão até 41,4 kVA. Com o nível 4 passas a poder assumir a execução de redes de distribuição, postos de transformação e instalações de produção, e, dentro de uma entidade instaladora, instalações até 30 kV e 250 kVA. Esta diferença vale dinheiro e vale entrevistas, por isso escreve sempre o teu nível no currículo.
Usa os nomes oficiais das qualificações, porque são esses que o recrutador procura. No Catálogo Nacional de Qualificações, gerido pela ANQEP, a de nível 2 chama-se Eletricista de Instalações e destina-se a quem tem o 9.º ano e não tem o 12.º. A de nível 4 chama-se Técnico de Instalações Elétricas, com o código 52238.
O título ITED da ANACOM, o extra que separa currículos
Muitas empresas instaladoras fazem elétrica e telecomunicações na mesma obra, e um eletricista que também possa assinar ITED vale mais na proposta ao cliente. O título profissional é atribuído pela ANACOM. Segundo a própria ANACOM, um técnico das áreas de eletricidade e energia ou de eletrónica e automação precisa de 100 horas de formação habilitante, correspondentes às unidades de formação 10527, 10528, 10529 e 10530, numa entidade formadora certificada ou numa entidade pública que cumpra os requisitos da Portaria n.º 377/2015. Concluída a formação, pede-se o título através do formulário da ANACOM.
Há um pormenor que apanha muita gente desprevenida: ao abrigo do Decreto-Lei n.º 123/2009, o instalador ITED tem de fazer formação de atualização de cinco em cinco anos para manter o título válido. Se fizeste essa atualização, escreve o ano no currículo. É a diferença entre um título que a empresa pode usar amanhã e um título que ninguém sabe se ainda está de pé.
Resumo profissional: dois exemplos para adaptar
Para quem já anda em obra há anos:
Eletricista com 11 anos em instalações de serviço particular, inscrito na DGEG como responsável pela execução, nível 2, e com a qualificação de Técnico de Instalações Elétricas concluída em 2023. Trabalho em edifícios de habitação e terciário, com montagem e ligação de quadros, ensaios e apoio à receção das instalações. Título ITED atualizado em 2024. Procuro uma entidade instaladora com obra própria na Grande Lisboa.
Para quem vem de outra função e está a entrar na área:
Eletricista com 3 anos de manutenção industrial numa unidade de transformação alimentar em Aveiro, com qualificação de Eletricista de Instalações de nível 2 concluída em 2025 e inscrição na DGEG pedida em julho. Habituado a leitura de esquemas, substituição de aparelhagem e diagnóstico de avarias com a linha parada. Procuro entrar numa equipa de instalações prediais e fazer o nível 4 em paralelo.
O segundo exemplo é o que costuma faltar. Quem vem da manutenção tende a apagar essa experiência por achar que não conta para uma vaga de instalações. Conta muito, porque diagnóstico de avarias sob pressão é exatamente o que falta em obra quando alguma coisa não liga na véspera da entrega.
Da tarefa vaga ao bullet que se lê
A maioria dos currículos de eletricista descreve funções em vez de descrever trabalho feito. A diferença nota-se logo:
Antes: Montagem de instalações elétricas. Depois: Executei a instalação elétrica completa de 18 frações num edifício novo em Odivelas, da esteira ao quadro de cada apartamento, com ensaios de continuidade e de isolamento antes da vistoria.
Antes: Manutenção de quadros elétricos. Depois: Assegurei a manutenção preventiva de 40 quadros numa unidade fabril em Palmela, com registo de termografia trimestral e substituição programada de aparelhagem, sem paragem de linha não planeada em dois anos.
Antes: Trabalho em equipa e cumprimento de prazos. Depois: Coordenei dois ajudantes numa remodelação de 900 metros quadrados de escritórios em Matosinhos, entregue dentro do prazo contratado de seis semanas.
Números, local e resultado. Não é preciso inventar nada: esses números já estão todos na tua cabeça, só nunca foram para o papel.
Competências técnicas: escreve o que já tocaste
Substitui a lista de adjetivos por uma lista de coisas concretas. Aparelhagem e marcas com que trabalhas, tipo de instalação, ensaios que sabes fazer. Por exemplo: quadros elétricos e disjuntores diferenciais, canalizações técnicas e esteiras, aparelhagem Hager, Schneider e Legrand, iluminação LED e luminotecnia, automação predial e KNX, postos de carregamento de veículos elétricos, autoconsumo fotovoltaico, ensaios de isolamento e de continuidade, termografia, e as Regras Técnicas das Instalações Elétricas de Baixa Tensão.
Se já instalaste postos de carregamento ou já fizeste instalações fotovoltaicas, dá a esses trabalhos uma linha só para eles. São coisas que muita gente do ofício faz e nunca menciona no currículo, e são precisamente as que distinguem uma candidatura de outra igual.
Formato, extensão e foto
O Guia de Apoio à Procura de Emprego do IEFP é claro no essencial: o currículo é a primeira imagem que o empregador tem de ti, deve ser conciso e de leitura fácil, e duas páginas A4 chegam. Para um eletricista com menos de dez anos de percurso, uma página bem organizada costuma ser melhor do que duas mal aproveitadas.
Envia sempre em PDF, com um nome de ficheiro que se perceba, do género curriculo-joao-silva-eletricista.pdf. A fotografia é opcional em Portugal e ninguém te exclui por não a pôr.
Sobre o modelo Europass, é aceite em todo o lado, mas não é obrigatório e tende a diluir aquilo que aqui interessa, que é a caixa de certificações no topo. Seja qual for o formato, a orientação do Europass e da rede EURES mantém-se válida: adapta o currículo a cada oferta em vez de enviar sempre o mesmo ficheiro. Se preferires montar tudo num editor já preparado para leitura automática, podes fazê-lo em Laddro e guardar uma versão por tipo de obra.
Onde enviar e como adaptar
Além do Net-Empregos, do Sapo Emprego e do Indeed Portugal, vale a pena inscrever-te no Iefponline, onde o currículo é condição para te candidatares diretamente às ofertas do IEFP. As agências de trabalho temporário são outro canal a não ignorar na Grande Lisboa: a Randstad, por exemplo, tem anunciado vagas de eletricista certificado pela DGEG na zona de Cascais. E as entidades instaladoras registadas na DGEG continuam a aceitar candidaturas espontâneas por email, que neste setor ainda dão resultado.
Adaptar não é reescrever tudo. É trocar três coisas: a última linha do resumo, para nomear o tipo de obra do anúncio, a ordem dos bullets, para pôr primeiro o que se parece com a vaga, e as competências técnicas, para refletir o vocabulário do próprio anúncio. Dez minutos por candidatura.
Três erros que tiram bons eletricistas da lista
O primeiro é esconder a inscrição na DGEG no fim do documento, entre hobbies e línguas. O segundo é escrever "vários trabalhos de eletricidade" em vez de nomear obras, clientes e tipo de instalação. O terceiro é enviar o mesmo ficheiro para uma vaga de instalações prediais e para uma vaga de manutenção industrial, quando são trabalhos diferentes e quem recruta percebe a diferença em segundos.
Corrigidos estes três, o teu currículo passa a dizer em dez segundos aquilo que hoje demora um telefonema a descobrir. Num mercado onde falta gente com carteira e com prática, é isso que faz a chamada acontecer.