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Currículo sem experiência: como fazer o teu primeiro CV em Portugal

Como fazer um currículo sem experiência para o primeiro emprego em Portugal: estrutura, exemplos reais, foto ou não, páginas e onde te podes candidatar.

7 min de leitura
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Abrir um documento em branco quando nunca trabalhaste é intimidante. A secção da experiência profissional fica vazia, e a sensação é que não tens nada para escrever. Tens. O primeiro emprego em Portugal não se consegue com uma folha em branco, consegue-se com um currículo que arruma bem aquilo que já fizeste na escola, no voluntariado, num part-time de verão ou num projeto pessoal. Este guia mostra como o montar, com exemplos que podes copiar e adaptar.

Vale a pena começar com um número que tira alguma pressão: a taxa de desemprego dos jovens dos 16 aos 24 anos foi de 19,1% no primeiro trimestre de 2026, segundo o INE, uma descida de 2,1 pontos face ao mesmo período do ano anterior. Há mais empresas a contratar juniores do que há uns anos. O teu currículo é a peça que decide se és tu a ser chamado.

Sem experiência não é sem nada para mostrar

O erro mais comum é pensar que só conta trabalho pago com contrato. Não é assim que um recrutador lê um CV júnior. Aquilo que ele procura são sinais de que sabes aparecer, cumprir e aprender depressa. Esses sinais estão em muitos sítios que provavelmente já tens:

  • Trabalhos e projetos de curso, sobretudo os que fizeste em grupo ou com um resultado concreto
  • Estágios curriculares, mesmo que curtos ou não remunerados
  • Voluntariado, associações de estudantes, tunas, grupos de escuteiros
  • Part-times, explicações, campanhas de verão, restauração, apoio em eventos
  • Competências digitais reais: Excel, uma linguagem de programação, edição de vídeo, gestão de redes de uma marca pequena

A Randstad Portugal, no seu guia para primeiro emprego, resume bem a ideia: um currículo júnior deve parecer-se com qualquer outro, apenas com menos peso na experiência profissional e mais peso na experiência de vida. A matéria-prima está lá. Falta organizá-la.

Foto, número de páginas e Europass: o que se usa mesmo em Portugal

Antes da estrutura, três dúvidas que aparecem sempre e onde as convenções portuguesas têm respostas próprias.

Foto. Em Portugal é culturalmente aceite incluir uma fotografia no currículo, ao contrário de mercados que trabalham com CV anónimos. Não é obrigatória e não deve pesar na decisão, mas se decidires pôr, usa uma foto tipo passe recente, com luz decente e roupa neutra. Nada de fotos de férias recortadas.

Número de páginas. Para quem está a começar, uma página chega e sobra. Um estudo da ResumeGo, muito citado por sites de recrutamento, mostrou que os recrutadores tendem a preferir currículos de duas páginas em geral, mas ressalva que para recém-licenciados uma página é suficiente. Se não tens experiência que encha duas páginas, não a inventes para esticar o documento. Uma página bem feita comunica foco.

Europass. O formato Europass, criado pela União Europeia e disponível em europass.pt, continua a ser pedido em muitos concursos da função pública e valorizado por empregadores mais tradicionais. No privado, porém, está em desuso e os recrutadores estão cansados de ver sempre o mesmo modelo. A regra prática: usa Europass quando o anúncio o pede de forma explícita, e um CV moderno e limpo em todos os outros casos.

A estrutura de um currículo para primeiro emprego

A ordem das secções muda quando não tens histórico profissional. Em vez de abrir com a experiência, abres com aquilo que te posiciona melhor.

  1. Dados de contacto. Nome, telemóvel, email com ar profissional (nome.apelido, não o email da adolescência), cidade e link do LinkedIn. Idade, morada completa e estado civil são dispensáveis.
  2. Resumo ou objetivo. Duas ou três linhas que dizem quem és e o que procuras.
  3. Formação académica. A tua secção mais forte agora. Curso, instituição, ano, e média se for boa.
  4. Projetos, estágios e voluntariado. Aqui é onde ganhas o lugar.
  5. Competências. Técnicas e digitais primeiro, línguas com o nível real.
  6. Extras. Carta de condução, certificações, disponibilidade.

Como transformar aquilo que já fizeste em experiência

Esta é a parte que muda tudo. A diferença entre um CV júnior fraco e um forte não está no que a pessoa fez, está em como o descreve. Compara.

Antes:

Trabalhei num café durante o verão.

Depois:

Atendimento ao público num café em Aveiro durante três meses de verão, com gestão de caixa e média de 120 clientes por turno em época alta.

Antes:

Fiz um projeto de grupo na faculdade.

Depois:

Coordenei uma equipa de quatro colegas num projeto de marketing de seis semanas, com apresentação final avaliada em 17 valores.

O padrão é sempre o mesmo: verbo de ação, contexto, e um número ou resultado concreto sempre que exista. Números dão credibilidade a quem ainda não tem carreira. Não precisas de inventar, precisas de reparar naquilo que já aconteceu e traduzi-lo em linguagem de resultados.

Um resumo profissional que funciona

O topo do currículo é o que se lê em três segundos. Sem experiência, o resumo serve para dizer o que estudaste, o que sabes fazer e a que tipo de vaga te candidatas. Um exemplo que podes adaptar:

Recém-licenciada em Gestão pela Universidade do Minho, com estágio curricular em contabilidade e experiência de voluntariado na organização de eventos académicos. À vontade com Excel e Power BI. Procuro uma primeira oportunidade em análise financeira ou controlo de gestão na zona do Porto.

Repara no que faz: nomeia a formação, prova competências concretas, e diz exatamente o que procura e onde. Evita frases vazias como pessoa dinâmica e proativa, que ocupam espaço sem dizer nada. Um recrutador lê dezenas de currículos com essas mesmas palavras e nenhuma o convence.

Para as competências, sê honesto com os níveis. Em vez de escrever inglês fluente sem base, indica o nível segundo o quadro europeu, por exemplo inglês B2. Se puseres uma ferramenta no CV, conta que te podem perguntar sobre ela na entrevista.

Onde procurar o primeiro emprego em Portugal

Ter o CV pronto é metade. A outra metade é enviá-lo para os sítios certos.

Portais de emprego. O Net-Emprego, do IEFP, agrega muitas vagas públicas e privadas. O Sapo Emprego, o Indeed Portugal e o Alerta Emprego cobrem a generalidade dos setores. Para tecnologia, o ITJobs e o Landing.jobs são referências. Cria alertas com as tuas palavras-chave e candidata-te cedo, porque as vagas júnior enchem depressa.

Estágios do IEFP. Se saíste agora da formação, os estágios profissionais do IEFP são uma porta de entrada real. Depois da reforma de 2024, as antigas medidas ATIVAR.PT deram lugar aos Estágios INICIAR e aos Estágios +Talento. A bolsa depende do teu nível de qualificação e está indexada ao Indicador de Apoios Sociais, que em 2026 é de 537,13 euros. Segundo os valores divulgados pelo IEFP, um estágio INICIAR paga uma bolsa mensal bruta de 913,12 euros no nível 4 e 966,83 euros no nível 5, enquanto um estágio +Talento vai de 1181,69 euros no nível 6 até 1396,54 euros no nível 8, além de subsídio de alimentação e seguro de acidentes de trabalho. Para referência, o salário mínimo nacional em 2026 é de 920 euros brutos, segundo os valores oficiais noticiados pela DECO PROteste, ou seja uma bolsa de estágio pode ficar em linha com um ordenado de entrada.

Candidaturas espontâneas e rede. Muitas primeiras oportunidades não chegam a ser anunciadas. Uma mensagem bem escrita no LinkedIn para alguém que trabalha na área, ou um email direto a uma empresa que admiras, vale mais do que dez candidaturas em massa.

Erros que eliminam candidaturas logo à partida

Alguns deslizes fazem o teu CV ir para o lado errado da pilha antes de qualquer entrevista:

  • Um único CV genérico para todas as vagas. Adapta o resumo e as competências a cada anúncio, usando as mesmas palavras que a empresa usa.
  • Erros de português. Numa primeira candidatura, uma gralha custa caro. Lê em voz alta e pede a alguém para rever.
  • Email pouco profissional ou link do LinkedIn desatualizado.
  • Encher o currículo com hobbies genéricos como ler e ouvir música. Só incluis um passatempo se disser algo sobre ti que interesse à vaga.
  • Mentir sobre níveis de língua ou ferramentas. Isso desmorona no primeiro minuto da entrevista.

Antes de enviar, passa esta lista

Faz esta verificação rápida antes de carregares em enviar. Uma página, salvo se tiveres mesmo conteúdo para mais. Contactos corretos e email profissional. Resumo adaptado à vaga. Cada projeto ou part-time descrito com verbo de ação e, quando possível, um número. Competências com níveis reais. Zero erros de escrita. Guardado em PDF com um nome claro, do género CV_Nome_Apelido.pdf, e não Documento1.

Ninguém nasce com experiência. O primeiro emprego é precisamente aquilo que a corta. O que o teu currículo tem de fazer, nesta fase, é mostrar a um recrutador que vale a pena dar-te a primeira oportunidade. Organiza o que já tens, escreve com resultados concretos e candidata-te aos sítios certos. É assim que a folha deixa de estar em branco.