Negociação salarial em Portugal: por que continuas a aceitar menos do que vales
Em Portugal, negociar o salário continua a ser tabu para muitos. Aprende a preparar uma negociação salarial eficaz no mercado de trabalho atual.
Laddro Team

Há uma conversa que quase ninguém quer ter em Portugal, e não é a de política no jantar de família. É a de quanto dinheiro queres ganhar.
A negociação salarial em Portugal é um tema rodeado de desconforto. A maioria dos candidatos aceita a primeira proposta que lhes fazem, ou no máximo pergunta "seria possível subir um bocadinho?" com ar de quem pede desculpa. E isso é um erro que te pode custar milhares de euros por ano.
Por que em Portugal custa tanto falar de dinheiro
Culturalmente, falar de dinheiro é considerado de mau gosto. Perguntar quanto ganha o teu colega é tabu. Pedir mais ordenado numa entrevista dá medo porque pensas que te vão descartar. E há uma crença muito enraizada de que se a empresa te quer, já te vai oferecer um bom salário sem que tenhas de pedir.
Não é assim que funciona. As empresas têm orçamentos, e a primeira oferta quase nunca é o máximo que podem pagar. Esperam que negocies. Se não o fazes, simplesmente poupam o dinheiro.
E em Portugal há um agravante: os salários médios são baixos. Com uma média de 24.800 euros brutos anuais, bastante abaixo da média europeia, a margem de negociação pode parecer pequena. Mas existe. E cada 100 euros a mais por mês são 1.400 euros a mais por ano (com subsídios de férias e Natal).
A fuga de cérebros como argumento
Aqui está algo que muitos candidatos não usam a seu favor. Portugal está a perder profissionais qualificados para outros países europeus a um ritmo preocupante. As empresas sabem disto. Se és bom no que fazes, a empresa tem um incentivo real para te pagar bem, porque a alternativa é que emigres.
Não precisas de ameaçar com isso, claro. Mas ter consciência de que o teu valor de mercado pode ser mais alto do que o que te oferecem em Portugal dá-te uma posição negocial mais forte.
Prepara-te antes da conversa
A negociação não começa quando te dizem a cifra. Começa muito antes.
Investiga o mercado. Antes de qualquer entrevista, descobre quanto se paga por essa função na tua zona geográfica e no teu setor. Há ferramentas online que te dão intervalos salariais por função e cidade. O LinkedIn também mostra dados em algumas ofertas. Pergunta a contactos do setor se puderes.
Define o teu mínimo. Antes de negociar, precisa de saber qual é o teu chão: o valor abaixo do qual não aceitas. Calcula os teus gastos reais, tem em conta a fiscalidade e decide o que precisas para viver com conforto.
Define o teu ideal. Também precisas de um valor objetivo: o que gostarias de ganhar com base na tua experiência e no valor de mercado. A tua proposta inicial deve estar um pouco acima deste ideal, para teres margem.
Quando trazer o assunto à mesa
A regra geral: deixa que a empresa fale primeiro de dinheiro. Se na primeira entrevista te perguntam "quais são as tuas expectativas salariais?", podes responder com algo como "Gostaria de conhecer melhor a função e as responsabilidades antes de falar em números concretos, mas estou aberto a discutir". Isto dá-te tempo.
Se insistem, dá um intervalo em vez de um valor exato. "Estou à procura de algo entre 28.000 e 34.000 brutos anuais, dependendo do pacote completo de compensação". Repara: mencionas o pacote completo, porque o salário não é tudo.
Não é só o bruto anual
Em Portugal, a compensação tem vários componentes que podes negociar:
- Subsídio de alimentação (isento de IRS até certo valor em cartão)
- Seguro de saúde
- Bónus ou componente variável
- Formação paga pela empresa
- Flexibilidade horária e teletrabalho
- Dias de férias adicionais
- Ajudas de custo ou subsídio de transporte
Por vezes, uma empresa não pode subir o bruto mas pode dar-te um seguro de saúde que vale 1.000 euros por ano ou dois dias adicionais de férias. Não descartes estas opções. Soma tudo.
Como negociar sem ser desconfortável
A negociação não tem de ser um combate. Pensa nela como uma conversa entre duas partes que querem chegar a acordo.
Não te desculpes por negociar. Pedir uma compensação justa é profissional, não é ganância.
Usa dados, não emoções. "Segundo a minha pesquisa de mercado, o intervalo salarial para esta função com o meu nível de experiência está entre X e Y" é mais eficaz do que "preciso de mais porque a minha renda subiu".
Mostra flexibilidade. "Se o bruto não pode chegar a esse valor, poderíamos falar de outros componentes como formação ou flexibilidade?" Isto demonstra que procuras um acordo, não estás a impor condições.
Pede tempo se precisares. Não tens de aceitar no momento. "Parece-me uma proposta interessante. Posso dar-te uma resposta amanhã?" é perfeitamente válido.
Erros que se repetem em Portugal
Aceitar a primeira proposta por medo. O mercado está melhor do que há anos, com o desemprego em mínimos. Se és um bom candidato, tens mais poder do que pensas.
Comparar com o salário anterior. As empresas não deviam perguntar-te quanto ganhavas antes, mas se o fazem, não te sintas obrigado a responder. O relevante é o valor de mercado da função, não o teu histórico salarial.
Não negociar por gratidão. "É que já me estão a dar uma oportunidade" não é razão para aceitar menos do que o teu trabalho vale. Tu também lhes trazes valor.
Depois de aceitar
Depois de chegar a acordo, certifica-te de que tudo fica por escrito no contrato. Salário bruto, subsídios, benefícios, condições de teletrabalho, período experimental. Não te fies apenas no que foi dito na entrevista.
E lembra-te: a negociação salarial não termina ao assinar. Passados seis meses ou um ano, quando tiveres demonstrado o teu valor, podes (e deves) voltar a falar de revisão salarial.
Negoceia a partir de uma posição forte
Com um CV profissional e bem preparado, chegas à negociação com mais confiança. Na Laddro ajudamos-te a criar um CV que reflita o teu verdadeiro valor profissional, para que quando chegar o momento de falar de dinheiro, tenhas argumentos sólidos.