A semana de 4 dias em Portugal: o que está a acontecer
Portugal foi um dos primeiros países a lançar um piloto da semana de 4 dias. Os resultados são promissores. O estado da questão.
Laddro Team

Portugal foi um dos primeiros países do mundo a lançar um programa piloto da semana de 4 dias, sob coordenação do investigador Pedro Gomes (professor de Economia na Birkbeck, Universidade de Londres, e autor do livro "Friday is the New Saturday") e com apoio do Governo português. O piloto, iniciado em junho de 2023, envolveu dezenas de empresas de diferentes setores e colocou Portugal no mapa internacional da inovação laboral. Mas o que realmente aconteceu? E o que significa para quem trabalha em Portugal em 2026?
Os resultados internacionais que inspiraram o piloto português
A ideia da semana de 4 dias não nasceu em Portugal. Os pilotos internacionais, coordenados pela organização 4 Day Week Global em parceria com universidades de Cambridge, Oxford e Boston College, testaram o modelo em dezenas de países.
No Reino Unido, o piloto de 2022 envolveu 61 empresas e cerca de 2.900 trabalhadores durante seis meses. Os resultados, publicados pela Universidade de Cambridge, foram impressionantes: 92% das empresas decidiram continuar com a semana de 4 dias após o piloto. Os dados mostraram uma redução de 65% nos dias de baixa, 71% menos burnout, 57% menos rotatividade de pessoal e receita média 1,4% superior durante o período do piloto. Um segundo piloto no Reino Unido (2024/2025), com 17 empresas, resultou em 100% de continuidade no modelo.
Na Islândia, os pilotos realizados entre 2015 e 2019 com mais de 2.500 trabalhadores (cerca de 1% da população ativa do país) foram considerados um "sucesso esmagador" pelo think tank Autonomy. Após os pilotos, 86% da força de trabalho islandesa teve acesso a semanas de trabalho mais curtas ou ao direito de as negociar.
Na Bélgica, o Governo introduziu em 2022 o direito legal de comprimir a semana de trabalho em 4 dias (mantendo as mesmas horas totais). Na Alemanha, um piloto de 2024 com 45 empresas reportou resultados positivos em produtividade e satisfação.
O piloto português: o que aconteceu
O piloto português seguiu o modelo 100:80:100, que significa 100% do salário, 80% do tempo, 100% da produtividade. A premissa é que os trabalhadores mantêm o salário integral, trabalham menos um dia por semana (ou o equivalente em horas), mas mantêm o nível de produção através de melhor organização, menos reuniões desnecessárias e maior foco.
As empresas participantes, de setores como tecnologia, consultoria, serviços e indústria, testaram diferentes configurações: sexta-feira livre para todos, rotação de dias livres entre equipas, ou horários comprimidos (trabalhar as mesmas horas em 4 dias mais longos).
Os resultados do piloto português, apresentados pelo coordenador Pedro Gomes e pela equipa de investigação, mostraram tendências positivas: melhoria do bem-estar dos trabalhadores (redução de stress e fadiga), manutenção ou aumento da produtividade na maioria das empresas participantes, e redução do absentismo. A satisfação dos trabalhadores aumentou de forma consistente.
No entanto, nem todas as empresas tiveram a mesma experiência. Algumas reportaram dificuldades em manter o nível de serviço ao cliente, especialmente em setores com atendimento ao público. Outras encontraram desafios na coordenação de equipas e na gestão de prazos. Nem todas decidiram continuar com o modelo após o período experimental.
O enquadramento legal atual
Em 2026, não existe em Portugal uma lei que obrigue ou regulamente a semana de 4 dias. O Código do Trabalho define o período normal de trabalho como 8 horas diárias e 40 horas semanais (artigo 203.º CT), podendo ser reduzido por convenção coletiva ou acordo individual.
Isto significa que a semana de 4 dias, em Portugal, é uma decisão da empresa, não um direito do trabalhador. As empresas que a implementam fazem-no voluntariamente, geralmente como estratégia de atração e retenção de talento.
O que a lei permite atualmente:
- Horário concentrado: O artigo 209.º do Código do Trabalho permite concentrar o período normal de trabalho em 4 dias, com jornadas diárias de até 10 horas, mediante acordo entre empregador e trabalhador. Neste modelo, trabalhas as mesmas 40 horas, mas em 4 dias em vez de 5.
- Trabalho a tempo parcial: O artigo 150.º CT permite acordar um horário de trabalho a tempo parcial, por exemplo 32 horas semanais em 4 dias, com redução proporcional do salário.
- Convenções coletivas: Alguns contratos coletivos de trabalho já preveem semanas de trabalho inferiores a 40 horas, e podem ser a via mais eficaz para implementar a semana de 4 dias em setores inteiros.
As dificuldades específicas de Portugal
Salários baixos
Esta é a dificuldade mais fundamental. Uma semana de 4 dias com redução de salário (modelo 80:80:100, ou seja, 80% do salário por 80% do tempo) seria insustentável para a grande maioria dos trabalhadores portugueses. Quando o ganho médio é de 1.580 euros brutos (INE, 2024) e o custo de vida nas grandes cidades consome a quase totalidade do rendimento líquido, uma redução de 20% no salário não é viável.
Por isso, o modelo que faz sentido em Portugal é o 100:80:100: manter o salário a 100% e reduzir o tempo de trabalho. Mas isto exige que as empresas consigam manter a produtividade com menos horas, o que nem sempre é fácil.
Tecido empresarial de PMEs
Portugal é um país de pequenas e médias empresas. Segundo o INE (Estatísticas das Empresas, 2024), mais de 99% das empresas portuguesas são PMEs, e a maioria tem menos de 10 trabalhadores. Reorganizar turnos e coberturas é significativamente mais difícil numa empresa de 8 pessoas do que numa de 500. Se um dos 8 trabalhadores está ausente à sexta-feira, a capacidade operacional da empresa cai 12,5%, e não há redundância interna para compensar.
Cultura de presenteísmo
A cultura laboral portuguesa, embora menos marcada do que a espanhola ou a grega, ainda valoriza a presença física no local de trabalho. "Estar no escritório" é frequentemente confundido com "trabalhar". Implementar a semana de 4 dias exige uma mudança cultural profunda: medir resultados em vez de horas, confiar nos trabalhadores e aceitar que menos tempo no escritório pode significar mais produtividade.
Setores de difícil aplicação
A semana de 4 dias é mais fácil de implementar em setores como tecnologia, consultoria, serviços financeiros e trabalho de escritório. É mais difícil em setores como a restauração, o retalho, a saúde e a indústria transformadora, onde a presença física é contínua e a cobertura de turnos é complexa. Em Portugal, estes setores representam uma parte significativa do emprego total.
O que podes fazer agora
Se a semana de 4 dias te interessa, tens várias opções:
Procura empresas que já a ofereçam. São poucas em Portugal, mas existem, especialmente no setor tecnológico e em empresas internacionais com operações em Portugal. Plataformas como o LinkedIn e o Glassdoor permitem filtrar por benefícios e condições de trabalho.
Negoceia horário concentrado. Se a tua função o permite, propõe ao teu empregador concentrar as 40 horas semanais em 4 dias de 10 horas (artigo 209.º CT). Não ganhas um dia de folga "grátis" (trabalhas as mesmas horas), mas ganhas 52 dias livres extra por ano.
Negoceia tempo parcial a 80%. Se a tua situação financeira o permite, propõe trabalhar 4 dias por semana com redução proporcional de salário. O artigo 150.º CT regulamenta o trabalho a tempo parcial e garante os mesmos direitos proporcionais.
Sê parte da mudança. Se és gestor ou empresário, considera testar o modelo na tua empresa. Os pilotos internacionais mostram que, na maioria dos casos, a produtividade mantém-se ou aumenta. O investimento em bem-estar e retenção de talento compensa frequentemente a redução de horas.
Encontra empresas inovadoras e oportunidades que valorizem o equilíbrio entre vida profissional e pessoal com Laddro. O futuro do trabalho não é trabalhar mais; é trabalhar melhor.