Currículo de cabeleireiro: exemplo, categorias e certificação
Currículo de cabeleireiro em Portugal: as categorias do CCT do sector, certificado de nível 4, RVCC, carteira de clientes e o que os salões pedem mesmo.
Laddro Team

Quem gere um salão raramente lê um currículo sentado ao computador. Lê-o entre uma cor e um brushing, com o telemóvel na mão, e o que procura são três coisas: que serviços fazes sozinho, quando podes começar e se aguentas um sábado cheio. Um currículo de cabeleireiro que responda a isto na primeira metade da página passa à frente de um currículo bonito que obriga a procurar.
Este artigo mostra como montar esse documento para o mercado português, com o vocabulário que os salões cá usam e com um exemplo de secção que podes copiar e adaptar.
Não há carteira profissional, por isso o certificado conta ainda mais
Em Portugal deixou de existir carteira profissional de cabeleireiro. O Decreto-Lei n.º 92/2011, de 27 de julho, revogou a obrigatoriedade da carteira em várias profissões e, desde então, ninguém te pode exigir esse documento para trabalhar num salão. Quem abre estabelecimento cumpre os requisitos técnicos do Decreto-Lei n.º 10/2015, de 16 de janeiro, e responde perante a ASAE, mas isso é sobre o espaço, não sobre ti.
A consequência prática é simples: como não existe um carimbo oficial que diga "esta pessoa sabe fazer madeixas", o teu currículo tem de fazer esse trabalho. É por isso que a formação e a descrição dos serviços pesam tanto num CV de cabeleireiro e tão pouco, por exemplo, num CV de administrativo.
Se fizeste o curso, escreve-o com o nome certo. A qualificação de Cabeleireiro/a consta do Catálogo Nacional de Qualificações e corresponde ao nível 4 do Quadro Nacional de Qualificações, com um referencial da ANQEP ministrado por entidades certificadas pela DGERT. Nas escolas que o dão, o percurso ronda as 1275 horas de formação mais 210 horas de formação em contexto de trabalho, segundo o descritivo do curso publicado pela EFAPE. No currículo isso escreve-se assim:
Certificado de Qualificação Profissional, Cabeleireiro/a, nível 4 do QNQ. Entidade formadora certificada pela DGERT, 2023.
Aprendeste no salão e não tens papel nenhum? Existe o RVCC
Muita gente boa entrou aos dezassete anos a lavar cabeças e nunca fez curso. Para essas pessoas há o processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, o RVCC profissional, feito num Centro Qualifica. Segundo o IEFP, dirige-se a adultos com idade igual ou superior a 18 anos e, nos candidatos até aos 23 anos, exige pelo menos três anos de experiência profissional comprovada. No fim recebes um Certificado de Qualificações ou, se já tiveres a escolaridade correspondente, um Diploma de Qualificação de nível 2 ou 4.
Enquanto o processo não está concluído, não inventes. Escreve "processo de RVCC profissional em curso, Centro Qualifica de Setúbal, previsão de conclusão em junho" e mostra na experiência aquilo que sabes fazer. Um gerente aceita bem um processo a decorrer. O que não aceita é descobrir na primeira semana que a coloração não corre.
Usa as categorias que o sector usa
O contrato coletivo de trabalho entre a Associação dos Cabeleireiros de Portugal e o CESP, estendido pela Portaria n.º 204/2009, de 23 de fevereiro, define categorias profissionais que continuam a ser a linguagem corrente dos salões. Vale a pena usá-las como título da tua experiência, porque dizem à outra pessoa exatamente onde te posicionar:
- Cabeleireiro completo, que segundo o CCT executa, além das tarefas das restantes categorias, penteados de arte, penteados históricos e aplicação de postiços.
- Oficial especializado, que faz ondulações a ferro, penteados de noite, caracóis a ferro, diagnósticos técnicos e as preparações químicas que resultam desse diagnóstico.
- Praticante, que executa corte, penteados e mise-en-plis além das tarefas de ajudante.
- Ajudante, que lava, isola e enrola cabelo para permanentes, aplica tintas, faz descolorações e coloca rolos.
- Aprendiz, em regime de aprendizagem sob orientação.
O mesmo documento trata à parte os ofícios correlativos, como manicura, esteticista e massagista de estética. Se fazes unhas ou estética além do cabelo, separa isso numa linha própria em vez de misturar tudo em "cabeleireira e mais umas coisas". Há salões a contratar exatamente esse perfil misto.
A lista de serviços vem antes da experiência
Esta é a diferença de formato mais importante. Num CV de escritório, o bloco de competências aparece no fim. Num CV de cabeleireiro, deve aparecer logo abaixo do teu nome e do resumo, porque é o único bloco que o salão lê sempre.
Escreve-o como uma lista curta e concreta, com os termos que usarias ao balcão: corte masculino e feminino, corte à navalha, barba, brushing, coloração, madeixas, balayage, descoloração, alisamento, permanente e desfrisagem, mise-en-plis, penteados de noiva, tratamentos capilares, aplicação de postiços. Acrescenta as marcas com que trabalhas, porque um salão que usa uma linha específica valoriza quem já a conhece.
Não escrevas o que não fazes. Uma lista com quinze serviços é uma promessa de quinze serviços, e verifica-se no primeiro sábado.
Exemplo de uma entrada de experiência, antes e depois
Os números abaixo são de exemplo e servem só para mostrar o formato. Substitui-os pelos teus, que já conheces de cabeça.
Antes:
Cabeleireira. Fazia cortes, cores e penteados. Atendimento ao cliente.
Depois:
Oficial especializada · Salão Marta Reis, Braga · março de 2021 a agosto de 2026
Média de 9 clientes por dia à semana e 14 ao sábado, em agenda partilhada com três colegas.
Coloração, madeixas e balayage em cerca de metade dos serviços, com diagnóstico capilar feito antes de cada trabalho químico.
Responsável pela encomenda de produto e pelo controlo de stock da cor desde 2023.
Formação interna de duas aprendizas em lavagem, isolamento e aplicação de tinta.
A segunda versão não é mais bonita, é mais útil. Diz o volume, diz a mistura de serviços, diz que já tens responsabilidades além da cadeira. É isso que separa uma oficial de uma praticante aos olhos de quem contrata. Se quiseres que a estrutura fique arrumada sem te preocupares com alinhamentos, podes montar tudo em criar currículo e exportar já formatado.
O resumo de três linhas
Logo a seguir ao nome, três linhas bastam:
Cabeleireira com sete anos de salão em Braga e no Porto, especializada em coloração e madeixas. Certificado de qualificação profissional de nível 4. Disponível para horário de salão, incluindo sábados, e para começar com duas semanas de aviso prévio.
A última frase parece banal e é das que mais ajudam. Basta olhar para os títulos dos anúncios no Net-Empregos e no Indeed, onde "entrada imediata" e "urgente" aparecem repetidamente, para perceber que quem diz quando pode começar poupa uma troca de mensagens.
Carteira de clientes e aluguer de cadeira
Se andas a ver anúncios já reparaste: muitos salões pedem carteira de clientes própria. É legítimo mencionar que tens clientela fiel numa zona, mas escreve-o com cuidado e sem números que não consegues sustentar. Uma linha do género "clientela regular na zona de Gaia, com parte disponível para acompanhar mudança de salão" diz o suficiente.
Repara também na natureza da oferta. Um anúncio de aluguer de cadeira, como o da Daniela Beauty Academy em Corroios publicado no Indeed em junho de 2026, não é uma vaga por conta de outrem: é um espaço arrendado a quem trabalha por conta própria, com recibos verdes e clientes seus. Se procuras contrato, filtra estes anúncios antes de gastar candidaturas.
O que as ofertas reais estão a pedir
Vale a pena ler o que está publicado neste momento em vez de escrever o currículo às cegas.
A abertura do salão da Dessange em Lisboa, anunciada no Indeed a 9 de setembro de 2026, pede experiência comprovada em cabeleireiro de alta gama, domínio do português e do inglês e atenção ao detalhe, para aconselhar uma clientela internacional. Se te candidatas a salões de gama alta em Lisboa, o inglês passa a ser um item obrigatório do currículo e não uma linha decorativa no fim.
Do outro lado do mercado, a oferta da rede Formo em Lisboa, publicada no Indeed em maio de 2026, promete contrato oficial desde o primeiro dia, indica remuneração entre 1000 e 1600 euros por mês e aceita expressamente "profissionais em início de carreira com vontade de crescer", exigindo autorização de trabalho em Portugal. Ou seja, há vagas onde a ausência de anos de casa não elimina ninguém, desde que o currículo mostre formação e vontade.
Onde te candidatas
No Net-Empregos, a pesquisa por cabeleireiro devolvia 154 ofertas em setembro de 2026, de Lisboa ao Porto, passando por Aveiro, Setúbal e Madeira. O Indeed acrescenta os anúncios das cadeias e das aberturas novas. No iefponline, atenção a um pormenor que apanha muita gente de surpresa: tens de ter um currículo submetido no portal antes de conseguires candidatar-te a qualquer oferta, por isso trata disso num dia calmo e não à pressa quando aparece a vaga certa.
E continua a valer o método antigo. Muitos salões de bairro nunca publicam nada e contratam por quem entra pela porta com o currículo impresso, de preferência a meio da manhã de terça, que é quando há espaço para conversar.
Quatro erros que tiram o currículo da pilha
- Uma página chega. Ninguém precisa de duas páginas para dez anos de salão.
- Fotografias de trabalhos no meio do texto. Guarda-as para o Instagram e põe o link, que é onde vão ser vistas em condições.
- Não dizer a disponibilidade. Salão é sábado. Se não podes ao sábado, diz logo, porque vais poupar tempo aos dois lados.
- Contactos incompletos. Telemóvel e email no topo, e um email que não seja o da escola secundária.
Se levares só uma ideia daqui, leva esta: como não há carteira profissional em Portugal, quem contrata compra a tua descrição. Escreve-a como quem explica a um colega o que consegue fazer numa cadeira, sem exagerar, e o resto resolve-se na prova prática.