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Dicas de CV

Currículo de padeiro e pasteleiro: exemplo, categorias e horário especial

Exemplo de currículo de padeiro e pasteleiro em Portugal: categorias do CCT da panificação, HACCP, horário especial e um bullet de experiência reescrito.

9 min de leitura
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Numa padaria portuguesa a contratação decide-se depressa. Alguém sai, o fabrico não pode parar, e o patrão precisa de saber em cinco minutos se tu tapas o buraco. É por isso que o currículo de padeiro e de pasteleiro tem de responder a uma pergunta concreta logo na primeira linha: que categoria profissional é que tu tens, e o que consegues fazer sozinho às quatro da manhã quando não está mais ninguém no fabrico.

A boa notícia é que o setor já te deu as palavras certas. O contrato coletivo que rege padarias e pastelarias em Portugal tem uma lista fechada de categorias, e é essa lista que aparece nos anúncios.

A tua categoria profissional não é um detalhe, é o título do teu CV

O contrato coletivo entre a Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares (ACIP) e a FESAHT, publicado no Boletim do Trabalho e Emprego n.º 2, de 15 de janeiro de 2025, aplica-se em todo o território nacional e abrange, segundo a própria cláusula 1.ª, 3500 empresas e 13 500 trabalhadores. A mesma cláusula diz a que estabelecimentos se aplica: padaria, pastelaria, estabelecimento especializado de venda de pão, boutique de pão quente, confeitaria, cafetaria e geladaria, com ou sem terminais de cozedura.

A cláusula 15.ª define a escada de acesso, que é a tua carreira escrita por extenso. No fabrico de pão: aprendiz, aspirante a panificador (ao fim de um ano de aprendizagem ou logo que atinjas a maioridade), panificador de 2.ª (doze meses na categoria), panificador de 1.ª (três anos), panificador principal e encarregado de fabrico. Na pastelaria: aprendiz, aspirante a pasteleiro, pasteleiro de 3.ª, de 2.ª e de 1.ª (três anos em cada degrau) e, no topo, mestre pasteleiro.

Isto não é teoria de sindicato. Num anúncio publicado a 24 de agosto de 2026 para a unidade do Parque das Nações, em Lisboa, o grupo hoteleiro Martinhal procurava exatamente um «Pasteleiro de 2ª (M/F)». No Net-Empregos, a 12 de setembro de 2026, uma das ofertas na pesquisa por pasteleiro chamava-se «Pasteleiro/a 3ª 2ª». Se o teu currículo diz apenas «trabalhei numa pastelaria», obrigas quem lê a adivinhar o teu nível, e ninguém adivinha a teu favor.

Escreve a categoria no topo, a seguir ao nome, como está no contrato:

Pasteleiro de 1.ª · 9 anos em pastelaria de fabrico próprio · Disponível para horário especial

O quadro de pessoal obriga o patrão a ter categorias que tu podes ter

Esta é a parte que quase ninguém usa e que muda a conversa. O anexo II do mesmo contrato fixa densidades obrigatórias. Num estabelecimento de fabrico de pão com um só trabalhador, esse trabalhador não pode ter categoria inferior a panificador principal. Com mais de três e até seis trabalhadores, é obrigatória a existência de um panificador principal e de um amassador ou um forneiro. Acima de seis, exige-se também um encarregado de fabrico.

Na pastelaria a regra é equivalente: é obrigatória a existência de um pasteleiro de 1.ª em todos os estabelecimentos quando não exista o lugar de mestre pasteleiro, e sempre nos que têm mais de três trabalhadores. Os pasteleiros de 2.ª não podem exceder a proporção de dois por cada pasteleiro de 1.ª

Traduzido para quem procura emprego: quando um pasteleiro de 1.ª sai de uma casa com cinco pessoas, o patrão tem um problema de conformidade, não só uma vaga. Se o teu currículo diz «pasteleiro de 1.ª» de forma inequívoca, és a solução desse problema. Se diz «experiência em pastelaria», és mais um envelope.

O que a tua categoria vale na tabela

O anexo IV do contrato coletivo publicado no BTE n.º 2, de 15 de janeiro de 2025, traz a tabela de remunerações mínimas para o período de 1 de setembro a 31 de dezembro de 2024, com duas colunas: horário normal e horário especial. Mestre pasteleiro, 1 050,00 € e 1 260,00 €. Pasteleiro de 1.ª, 1 000,00 € e 1 200,00 €. Pasteleiro de 3.ª, 925,00 € e 1 110,00 €. Panificador principal, 906,00 € e 1 087,20 €. Amassador e forneiro, 890,00 € e 1 068,00 €. Panificador de 2.ª, 855,00 € e 1 026,00 €.

Uma ressalva honesta: a tabela é de 2024 e o próprio acordo prevê que qualquer valor abaixo do salário mínimo nacional seja atualizado para o mínimo em vigor, por isso os montantes mais baixos já foram absorvidos. O que continua a valer é a distância entre degraus, e essa distância é grande: entre panificador de 2.ª e panificador principal há mais de 50 euros mensais de mínimo, e entre pasteleiro de 3.ª e pasteleiro de 1.ª há 75 euros. Provar o degrau que já tens compensa.

Estrutura: uma página, por esta ordem

  1. Nome, categoria profissional, contacto, concelho. O concelho importa porque os turnos começam de madrugada e ninguém contrata quem vive a hora e meia sem transporte próprio.
  2. Resumo em três linhas, com categoria, tipo de fabrico e volume.
  3. Experiência profissional, do mais recente para trás.
  4. Produtos e técnicas, em lista. Esta secção substitui as «competências» vagas.
  5. Formação e certificações, incluindo higiene e segurança alimentar.
  6. Disponibilidade: horário especial, noites, fins de semana, carta de condução.

Sem fotografia, sem data de nascimento, sem estado civil. Em Portugal nada disso é exigido e ocupa espaço que devia ser dos produtos que sabes fazer.

Exemplo de resumo profissional

Para um padeiro:

Panificador principal com 11 anos em padaria de fabrico próprio no distrito de Braga. Responsável pela amassadura e cozedura de cerca de 900 unidades de pão por turno, em massas de trigo, mistura e centeio. Faço sozinho a abertura do fabrico às 3h30 e acumulo funções de forneiro quando necessário. Disponível para horário especial.

Para uma pasteleira:

Pasteleira de 1.ª com 9 anos entre pastelaria tradicional e hotelaria em Lisboa. Massas folhadas, cremes, doçaria conventual e salgados de fabrico diário. Trabalho com fichas técnicas e controlo de custos, e formei três pasteleiros de 3.ª na última casa. Formação em segurança alimentar atualizada em 2025.

Repara no que estes dois parágrafos fazem: dizem a categoria, o volume, o que a pessoa faz sem supervisão e a disponibilidade. Em três linhas o empregador já sabe se te chama.

Antes e depois de um bullet de experiência

A frase que aparece em nove currículos em cada dez:

Padaria Central, Guimarães. Padeiro. Fabrico de pão e apoio geral.

A mesma pessoa, a mesma casa, reescrita:

Padaria Central, Guimarães · Panificador de 1.ª · 2019 a 2026 Amassadura e tender de 700 a 900 unidades por turno, em quatro tipos de massa. Abertura do fabrico às 3h30 em turno único, sem supervisão. Regulação e vigilância de dois fornos de lastro. Registos diários de temperaturas e de receção de matérias-primas no plano HACCP da casa. Formei dois aspirantes a panificador até à categoria de panificador de 2.ª

Nada foi inventado. O que mudou foi que passaram a existir números, categorias e uma prova de que a pessoa trabalha sozinha.

HACCP e higiene: escreve-o, porque o contrato obriga

O contrato coletivo da ACIP impõe ao empregador «implementar o auto controlo como sistema de segurança alimentar estruturado segundo a metodologia HACCP», e impõe ao trabalhador cuidar da qualidade higio-sanitária dos produtos «dando cumprimento ao Código de Boas Práticas de Higiene e Fabrico». O mesmo texto desce ao detalhe: nada de brincos, pulseiras, relógios ou anéis nas áreas de produção, e unhas curtas, limpas e sem verniz quando há contacto direto com alimentos.

Isto explica por que razão os anúncios pedem HACCP mesmo para funções de base. No anúncio do Martinhal para pasteleiro de 2.ª, o perfil incluía «Noções básicas de microbiologia dos alimentos», «Técnicas de conservação de produtos alimentares» e «Segurança e higiene alimentar», com referência a noções de autocontrolo e códigos de boas práticas de HACCP.

Na tua secção de formação, escreve assim, com ano:

Higiene e Segurança Alimentar / HACCP, 2025, 25 horas Manipulação de alimentos, 2022 Formação interna em fichas técnicas e registos de temperatura, 2024

Se a formação foi dada pela empresa e não tens certificado, escreve na mesma e indica que foi interna. É mais útil do que deixar a secção vazia.

Horário especial: diz o que aceitas, por escrito

A cláusula 21.ª do contrato coletivo cria um regime de horários especiais em que o descanso semanal pode calhar em qualquer dia, o período normal de trabalho pode ser de dez horas num dia por semana e a média em quatro semanas consecutivas é de 40 horas. Em cada quatro semanas, um dos dias de descanso tem obrigatoriamente de coincidir com um domingo. A adoção do regime exige acordo escrito, revogável a todo o tempo com aviso prévio de pelo menos 30 dias.

É esse regime que justifica a segunda coluna da tabela salarial. Quem escreve «disponível para horário especial» está a dizer duas coisas ao mesmo tempo: que aceita madrugadas e fins de semana, e que conhece o enquadramento em que isso é pago.

Num anúncio publicado a 30 de agosto de 2026 para uma loja em Castelo Branco, a Auchan procurava um padeiro e pasteleiro a 40 horas e pedia «Preferencialmente o 12º ano» e «Disponibilidade para horários rotativos». Repara na palavra preferencialmente: a escolaridade é desejável, a disponibilidade não tem essa palavra ao lado.

Formação: o que conta e o que fazer se não tens papéis

O Catálogo Nacional de Qualificações tem a qualificação Pasteleiro/a Padeiro/a, na área 541, Indústrias Alimentares, de nível 2 do Quadro Nacional de Qualificações.

Acima dela, as Escolas do Turismo de Portugal têm o curso de Técnico/a de Pastelaria/Padaria, de nível 4, com três anos letivos divididos em seis semestres e dois estágios curriculares de três meses cada, aberto a titulares do 9.º ano e a jovens até aos 25 anos, com propinas gratuitas segundo a brochura da própria rede de escolas.

E se tens dez anos de forno e zero papéis? O caminho é o RVCC profissional do IEFP. Segundo as regras publicadas pelo instituto, o processo é para maiores de 18 anos e, nos candidatos com idade igual ou inferior a 23 anos, é obrigatório que possuam pelo menos três anos de experiência profissional. No fim recebes um Certificado de Qualificações ou um Diploma de Qualificação, consoante já tenhas ou não a escolaridade associada ao nível. Enquanto o processo decorre, escreve «RVCC profissional em curso» com o centro onde estás inscrito.

Onde te candidatares

A 12 de setembro de 2026, o Net-Empregos mostrava 131 ofertas na pesquisa por pasteleiro e 54 na pesquisa por padeiro, de Braga a Setúbal e até à Madeira e aos Açores. As cadeias com fabrico próprio, como A Padaria Portuguesa, e as insígnias de retalho alimentar publicam nos seus sites e no Indeed. E continua a valer o método antigo: entregar o currículo em mão, de manhã cedo, nas padarias do teu concelho, porque muitas nunca chegam a anunciar. Leva também uma carta de apresentação curta.

Os erros que eliminam candidaturas

Esconder o horário em que trabalhavas: se fazias a abertura às três da manhã, isso é a tua melhor credencial. Listar «pastelaria» sem dizer que tipo, quando a doçaria conventual, o folhado e o gelado são ofícios diferentes. Não indicar volume, porque 900 unidades por turno e 90 são trabalhos distintos. E juntar cinco páginas de experiências soltas de três meses, quando o que interessa é a casa onde ficaste mais tempo e a categoria que lá tinhas.

Se quiseres montar isto numa página limpa sem lutar com o Word, o editor da Laddro organiza as secções por ti e mantém o ficheiro legível no telemóvel.

O currículo de padeiro e de pasteleiro é dos mais fáceis de escrever bem em Portugal, porque o setor já te deu o vocabulário. Usa a categoria que é tua, escreve os números que fazes, diz que aceitas madrugadas e prova a formação em higiene. Quem lê já sabe o resto.

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