Currículo para trabalho sazonal no Algarve: guia completo
Quando abrem as vagas de época no Algarve, que contrato te vão propor, como escrever o currículo para hotelaria e onde te candidatar sem perder tempo.
Laddro Team

Há um erro que se repete todos os anos. Alguém decide em maio que vai fazer a época no Algarve, abre o Net-Empregos, candidata-se a trinta anúncios de Albufeira e Portimão no mesmo fim de semana e depois estranha o silêncio. O problema não foi o currículo. Foi o calendário: nessa altura os hotéis já fecharam as equipas há meses e só estão a tapar buracos de última hora.
Quem trabalha na hotelaria algarvia sabe que o recrutamento da época alta acontece no inverno. A Feira de Emprego do Turismo do Algarve realizou-se a 6 de fevereiro de 2026 no Centro de Congressos do Algarve, em Vilamoura, com entrada gratuita e inscrição obrigatória, segundo a agenda do Turismo de Portugal, e juntou empresas de hotelaria, restauração, agências de viagens e cruzeiros. Em março de 2026, o grupo 3HB Hotels abriu uma campanha com mais de 400 vagas para as suas unidades de Faro e Albufeira, em front office, housekeeping, restaurante e bar, cozinha, pastelaria e manutenção, com candidaturas pelo portal 3hb.com/cv. Quem em fevereiro já tinha o currículo pronto entrou nesses processos. Quem começou em maio ficou de fora.
Este guia é sobre as duas coisas que decidem a tua época: chegar na altura certa e chegar com um documento que alguém consegue ler em trinta segundos.
O calendário real da contratação
A época alta algarvia estende-se sensivelmente de abril a outubro, mas a decisão de quem entra é tomada bem antes. Janeiro, fevereiro e março são os meses de feiras de emprego, campanhas de recrutamento das cadeias hoteleiras e processos das empresas de trabalho temporário que abastecem o setor. Abril e maio servem para substituições.
Isso não significa que fora dessa janela não haja nada. A 17 de setembro de 2026, já no fim da época, o Net-Empregos mostrava 802 ofertas na categoria de hotelaria e turismo para o distrito de Faro, com funções como chefe de receção em Faro, ajudante de cozinha em Lagos e operário polivalente de manutenção em Albufeira. O setor contrata o ano inteiro porque perde gente o ano inteiro. Mas as vagas de setembro são de reposição, não de montagem de equipa, e por isso são menos e mais exigentes.
O pano de fundo ajuda-te. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística divulgados pelo TravelBI do Turismo de Portugal, as atividades de alojamento e restauração empregavam 356,3 mil pessoas no segundo trimestre de 2026, mais 18,5 mil do que no período homólogo de 2025, um crescimento de 5,5% quando a economia no seu conjunto cresceu 2,9%. A procura existe. A questão é se o teu currículo chega antes das outras cem candidaturas.
O contrato que te vão propor
Quase de certeza um contrato de trabalho a termo certo. O artigo 140.º, n.º 2, alínea e) do Código do Trabalho admite expressamente o termo resolutivo para atividades sazonais ou cujo ciclo anual de produção apresente irregularidades estruturais, e é ao empregador que cabe provar o motivo que justifica o termo. Uma época de hotelaria encaixa nessa alínea sem margem para dúvida.
Antes de assinares, confirma três coisas. Primeiro, se o motivo justificativo está escrito no contrato, porque a lei obriga a que conste. Segundo, se existe contrato coletivo de trabalho aplicável, porque a AHETA publicou em janeiro de 2026 uma atualização das tabelas salariais com efeitos a 1 de janeiro desse ano, incluindo ajustes no subsídio de alimentação, no prémio de assiduidade e no prémio de línguas, e isso pode colocar o teu vencimento acima do salário mínimo nacional. Terceiro, quem paga o quê no alojamento, ponto a que voltamos mais à frente.
O currículo que sobrevive à triagem
O guia oficial de preenchimento do CV Europass, publicado pelo Centro Nacional Europass, avisa em caixa destacada que, por norma, os empregadores gastam menos de um minuto na análise de cada currículo durante a primeira triagem. Num hotel que recebe centenas de candidaturas em fevereiro, essa estimativa é generosa.
Uma página. Sempre. Estrutura que funciona para hotelaria e restauração:
- Nome, telemóvel com indicativo +351, email e a cidade onde estás, mais a data em que ficas disponível.
- Três linhas de perfil que digam a função, os anos e o tipo de casa onde trabalhaste.
- Experiência por ordem cronológica inversa, com o nome do estabelecimento, a categoria e o volume.
- Idiomas com nível, não com adjetivos.
- Formação e certificados que o setor exige, como HACCP ou primeiros socorros.
Repara no ponto 3. O que distingue um currículo de hotelaria dos outros é o volume. "Empregado de mesa" não diz nada. "Empregado de mesa num hotel de quatro estrelas com 180 quartos, serviço de pequeno-almoço em buffet para cerca de 300 pessoas por dia" diz tudo: o ritmo que aguentas, o tipo de operação que conheces e o que não precisa de te ser explicado no primeiro dia.
Um exemplo antes e depois
A diferença raramente está no que fizeste. Está no que escreveste.
Antes:
Empregado de mesa no Hotel Sol e Mar, Albufeira. Atendimento a clientes, serviço de mesa e apoio ao bar.
Depois:
Empregado de mesa, Hotel Sol e Mar (4 estrelas, 210 quartos), Albufeira. Época de abril a outubro de 2025. Serviço de pequeno-almoço em buffet para 250 a 320 hóspedes por dia e turno de jantar à la carte em sala de 90 lugares. Atendimento em inglês e alemão. Apoio ao bar da piscina em fins de semana de ocupação máxima.
E o perfil de abertura, no mesmo registo, escrito para uma candidatura concreta:
Empregado de mesa com três épocas completas em hotelaria de quatro estrelas no Algarve, habituado a buffets de pequeno-almoço acima de 250 pessoas e a turnos duplos em agosto. Inglês B2 e alemão A2. Disponível a partir de 1 de abril, com carta de condução e viatura própria.
Quatro linhas que respondem exatamente às perguntas que um diretor de F&B faz antes de marcar uma conversa.
Idiomas: o que pesa mesmo no Algarve
Escrever "inglês fluente" não te ajuda. Escreve o nível do Quadro Europeu Comum de Referência, de A1 a C2, porque é a escala que o anúncio usa e que o recrutador reconhece.
Depois do inglês, o Algarve valoriza o alemão, o francês e o neerlandês, porque é de onde vem uma parte grande dos hóspedes. O prémio de línguas previsto na contratação coletiva do setor existe precisamente por isso e transforma um idioma num valor mensal concreto. Se tens um A2 de alemão, escreve A2. Um nível modesto e honesto vale mais do que um "bom" que não resiste a duas frases ao telefone.
Onde te candidatares, por esta ordem
Começa pelos portais das próprias cadeias. Os grupos com unidades no Algarve têm páginas de recrutamento próprias, como o 3hb.com/cv, e é dessa base de dados que saem as primeiras chamadas. Depois os portais generalistas, com o Net-Empregos e o Indeed à cabeça, filtrados por distrito de Faro.
Em paralelo, o Iefponline. O IEFP recomenda aos candidatos que vejam diariamente os anúncios, que mobilizem a rede de relações contactando as pessoas que já conhecem, e refere que podes registar no portal o teu currículo, disponibilizando uma ou mais versões do mesmo. Essa possibilidade de ter várias versões é feita à medida do trabalho sazonal: uma versão para sala, outra para receção, outra para housekeeping, cada uma com o perfil de abertura reescrito.
Por fim, as empresas de trabalho temporário especializadas em turismo e hotelaria, que colocam muita gente nas unidades algarvias e costumam abrir processos mais cedo do que os hotéis. E as feiras, porque falar cinco minutos com quem recruta vale mais do que dez candidaturas online.
A pergunta sobre alojamento que tens de fazer
Se vais para o Algarve de fora da região, o alojamento é o verdadeiro fator de decisão. As estatísticas de rendas da habitação ao nível local do INE mostram que, no primeiro trimestre de 2026, a renda mediana dos novos contratos de arrendamento no Algarve foi de 10,71 euros por metro quadrado, acima da mediana nacional de 9,46 euros, e que nove dos quinze municípios algarvios ficaram acima do valor do país. Uma parte da hotelaria da região passou a arrendar casas para os trabalhadores de época precisamente porque sem isso não consegue contratar.
Pergunta, por escrito, no email em que aceitas a entrevista: há alojamento disponibilizado, é gratuito ou descontado no vencimento, é quarto individual ou partilhado, e as refeições durante o turno estão incluídas. Uma resposta clara a estas quatro perguntas muda por completo o que sobra ao fim do mês. Um hotel sério responde sem hesitar.
Quando a época acaba
Um contrato de época que termina em outubro não é um buraco no currículo. É uma linha com início e fim, e o setor lê isso como normal.
O guia do Europass é explícito ao pedir que não negligencies experiências que, embora não estejam diretamente relacionadas com a função a que te candidatas, possam constituir um fator preferencial, dando como exemplos a estadia no estrangeiro e o trabalho em contacto com o público. Uma época no Algarve é exatamente isso: contacto com público internacional, turnos longos, trabalho em equipa sob pressão real. Escreve o que geriste e em que línguas, e essa linha passa a servir-te numa candidatura para comércio, para atendimento ou para um call center em Lisboa.
E guarda os contactos. A pessoa que te coordenou este verão é quem vai montar a equipa do verão seguinte, e um email em janeiro a dizer que estás disponível chega antes de qualquer anúncio ser publicado.
Se ainda não tens a versão de uma página pronta, monta-a agora, em setembro, enquanto tens os números da época fresca na cabeça. Em fevereiro já não te lembras de quantos pequenos-almoços serviste por dia, e é esse número que faz a diferença. Podes criar o teu currículo e guardar as três versões de que vais precisar.