Foto no currículo: pôr ou não em Portugal
Foto no currículo em Portugal: o que diz o Código do Trabalho, quando a imagem ajuda, quando prejudica e as especificações do guia oficial do Europass.
Laddro Team

Há uma pergunta que aparece em todas as conversas sobre currículos em Portugal e que nunca tem resposta limpa: ponho foto ou não ponho? Quem já trabalhou em recrutamento diz uma coisa, o primo que arranjou emprego no mês passado diz outra, e os modelos que se descarregam na internet vêm metade com quadrado para a fotografia e metade sem.
A resposta honesta é que em Portugal a foto não é obrigatória em lado nenhum, continua a ser comum, e a escolha certa depende de três coisas concretas: o tipo de função, quem abre o ficheiro primeiro (uma pessoa ou um software) e se a candidatura fica cá dentro ou sai do país. Este artigo trata das três, com o que a lei portuguesa diz e com o que quem recruta cá responde quando lhe perguntam.
Nenhuma lei te obriga, e nenhuma lei te proíbe
Quem procura uma regra vai encontrar o contrário: o Código do Trabalho não fala de fotografias no currículo. Fala de uma coisa mais útil.
O artigo 17.º, sobre proteção de dados pessoais, diz que o empregador não pode exigir a candidato a emprego que preste informações relativas à sua vida privada, salvo quando sejam estritamente necessárias e relevantes para avaliar a aptidão para a execução do contrato, e ainda assim com fundamentação escrita. Traduzindo para a prática: uma empresa não te pode obrigar a enviar a tua cara. Tu é que decides se a ofereces.
Depois há os artigos 24.º e 25.º, que garantem igualdade no acesso ao emprego e proíbem discriminação em razão da ascendência, idade, sexo, orientação sexual, identidade de género, estado civil, situação familiar, nacionalidade, origem étnica ou raça, entre outros fatores. A ligação com a foto é direta e pouco confortável: uma fotografia entrega idade aproximada, género e origem étnica antes de alguém chegar à tua experiência profissional. Os enviesamentos que a lei proíbe são exatamente os que uma imagem ativa em menos de um segundo.
A Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego trabalha precisamente sobre esta zona quando analisa anúncios de emprego com indícios de preferência por um dos sexos. E o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados acrescenta o princípio da minimização: só se recolhem os dados necessários para a finalidade. A tua cara raramente é necessária para avaliar se sabes fazer o trabalho.
Nada disto proíbe a foto. Só deixa claro que é uma cedência voluntária de informação sobre ti, e que és tu quem decide se vale a pena.
O que os recrutadores portugueses dizem quando lhes perguntam
Há um número concreto que ajuda. Num estudo publicado pela Michael Page em maio de 2024, com respostas de 4245 candidatos e 619 consultores especializados de toda a Europa, 76 por cento dos consultores em Portugal consideram a fotografia um elemento necessário do currículo. O mesmo estudo põe a Alemanha nos 100 por cento e a Bélgica nos 34, o que mostra bem que isto é cultura de mercado e não boa prática universal.
Três em cada quatro é muito, mas não é unanimidade. E "necessária" na cabeça de um consultor que faz triagem para um cliente não é o mesmo que "vai fazer a diferença na decisão". O mesmo estudo indica que 76 por cento dos consultores portugueses defendem currículos com menos de duas páginas, abaixo dos 98 por cento em Itália e dos 91 em Espanha. Ou seja: o espaço em Portugal é apertado, e a foto ocupa uma fatia dele.
Onde a foto ajuda de facto
Há situações em que a imagem joga a teu favor e não vale a pena ser purista.
Funções com contacto direto com público em Portugal: receção de hotel no Algarve, restauração em Lisboa, comércio no Porto, atendimento em loja, imobiliário, animação turística. Nestas áreas a apresentação faz parte da função e a foto lê-se como coerência, não como enfeite.
Anúncios que pedem fotografia de forma explícita. Aparece com frequência em ofertas de hotelaria e de trabalho temporário no Net-Empregos e no Sapo Emprego. Se o anúncio pede, envia. Discutir a questão com quem publicou a oferta não te dá a entrevista.
Candidaturas espontâneas entregues em mão ou por email direto à gerência de um estabelecimento. Aí não há triagem automática nenhuma, há uma pessoa a associar um papel a uma cara.
Fora disto, o teu perfil no LinkedIn é outro assunto e não entra nesta conta. Aí a foto é esperada e a ausência dela nota-se. A decisão de que falamos aqui é apenas sobre o PDF que envias.
Onde a foto trabalha contra ti
Triagem automática. Os sistemas de gestão de candidaturas extraem texto, não interpretam imagens. Uma fotografia no cabeçalho não acrescenta nada à leitura e, quando está dentro de uma caixa de texto ou de uma tabela decorativa, ajuda a estragar a extração do nome e dos contactos. Pior ainda quando o currículo é exportado como imagem, caso em que não sobra texto nenhum para ler. Já escrevemos sobre isto no artigo sobre filtros de IA nos currículos em Portugal.
Multinacionais e empresas de tecnologia em Lisboa e no Porto. Muitas trabalham com processos de triagem cega precisamente para reduzir enviesamento, e o primeiro passo desses processos é remover a foto. Enviar uma dá trabalho extra a quem recebe.
Candidaturas para fora. No Reino Unido, na Irlanda, nos Países Baixos, na Suécia e na Dinamarca um currículo com fotografia parece amador e, em alguns casos, é devolvido para ser reenviado sem ela. Se estás a candidatar-te a Amesterdão ou a Dublin, tira a foto.
Concursos públicos. O formulário de candidatura previsto na Portaria n.º 125-A/2019 identifica o candidato por nome, data de nascimento, sexo e nacionalidade. A fotografia não consta da lista. Acrescentá-la ao currículo que anexas não muda uma vírgula da avaliação.
E o caso mais comum de todos: não tens uma foto decente. Uma imagem recortada de um casamento, uma selfie de férias ou um retrato de há oito anos fazem mais estragos do que a ausência de foto alguma vez fará.
A foto certa, segundo o guia oficial do Europass
Se decidires incluir, vale a pena seguir quem escreveu a regra. O "Guia para o preenchimento do CV Europass", publicado pelo Europass Portugal em 2024, dá três indicações no campo da fotografia: usar de preferência o formato jpg, usar uma fotografia atualizada e usar um fundo branco ou neutro.
O resto é prática corrente e resolve-se em vinte minutos:
- Enquadramento do peito para cima, cabeça centrada, olhar para a câmara.
- Roupa do mesmo nível da função a que te candidatas, não um nível acima nem três abaixo.
- Luz natural de frente, de preferência junto a uma janela. Nada de flash direto.
- Tamanho na página à volta de 3,5 por 4,5 centímetros, no canto superior, nunca a ocupar meia página.
- Ficheiro leve, abaixo de uns 300 KB, para o email não ficar preso.
- Sem filtros, sem logótipos ao fundo, sem óculos de sol e sem mais ninguém na fotografia.
O mesmo guia lembra que, por norma, os empregadores gastam menos de um minuto na primeira triagem de currículos. É todo o tempo que a tua foto tem para ajudar, e é o mesmo tempo que tem para distrair.
O mesmo cabeçalho, nas duas versões
Vale mais ver do que ler sobre isso. Imagina a Marta, rececionista de hotel em Albufeira, com seis anos de casa. O cabeçalho dela em versão com fotografia, para entregar diretamente numa unidade hoteleira do Algarve:
[fotografia 3,5 x 4,5 cm, canto superior direito]
MARTA LOURENÇO
Rececionista de hotel | Front office
Albufeira | 91X XXX XXX | [email protected] | linkedin.com/in/martalourenco
Rececionista com 6 anos em unidades de 4 estrelas no Algarve. Opera PMS, atendimento
em português, inglês e francês. Em época alta, até 180 check-ins por semana no turno.
E o mesmo cabeçalho na versão sem fotografia, para submeter no portal de candidaturas de uma cadeia internacional:
MARTA LOURENÇO
Rececionista de hotel | Front office
Albufeira | 91X XXX XXX | [email protected] | linkedin.com/in/martalourenco
Rececionista com 6 anos em unidades de 4 estrelas no Algarve. Opera PMS, atendimento
em português, inglês e francês. Em época alta, até 180 check-ins por semana no turno.
Disponibilidade para turnos rotativos e fins de semana. Carta de condução B.
Repara no que muda e no que não muda. As linhas que decidem são iguais nas duas versões: cargo, cidade, anos, sistema que domina, línguas e um número que prova volume de trabalho. O que a segunda versão ganha é o espaço que a fotografia ocupava, e esse espaço foi para duas informações que uma chefia de hotel quer mesmo saber antes de telefonar.
É esta a conta a fazer sempre. A foto não é grátis: paga-se em centímetros na zona mais valiosa da primeira página.
Decidir em trinta segundos
Passa por esta lista antes de exportar o PDF.
- O anúncio pede fotografia? Põe e não penses mais nisso.
- É contacto com público, entregue em mão ou por email direto, em Portugal? Põe, se tiveres uma foto atual e com fundo neutro.
- Vais submeter num portal de candidaturas com triagem automática? Não ponhas.
- É uma vaga fora de Portugal, num país do norte da Europa? Não ponhas.
- É concurso público? Não é preciso.
- Estás em dúvida e não tens foto boa? Não ponhas. A ausência de fotografia nunca custou uma entrevista a ninguém em Portugal.
Uma nota final de método: guarda duas versões do mesmo currículo, uma com foto e outra sem, com nomes de ficheiro claros. Demora dois minutos a criar e evita a asneira clássica de submeter num portal internacional o ficheiro que preparaste para entregar na receção de um hotel. No editor da Laddro dá para duplicar o currículo e trocar só o cabeçalho, sem refazer o resto, em criar currículo.
Antes de fechar o ficheiro, revê a ordem das secções e o peso de cada uma. O guia de como fazer um currículo trata disso em detalhe, e é aí que se ganha muito mais do que na discussão sobre a fotografia.