Hobbies e interesses no currículo: o que ajuda e o que te expõe
Quando a secção de interesses ajuda mesmo a candidatura, que dados nunca deves lá escrever por causa do RGPD e um exemplo antes e depois para copiares.
Laddro Team

Chegas ao fim do currículo, sobrou espaço no rodapé e escreves a linha que toda a gente escreve: "Leitura, cinema, viagens e desporto". Demoras três segundos a escrevê-la e o recrutador demora três segundos a saltá-la. Continua lá, ocupa espaço e não diz nada sobre ti.
A secção de interesses é a mais pequena do currículo e, ao mesmo tempo, a única onde um erro de julgamento pode custar-te a entrevista sem que alguma vez saibas porquê. Vale a pena decidi-la em vez de a despachar.
O que o empregador pode e não pode perguntar
O Código do Trabalho já tomou posição sobre isto. O artigo 17.º, no n.º 1, alínea a), diz que o empregador não pode exigir ao candidato informação relativa à vida privada, salvo quando seja estritamente necessária e relevante para avaliar a aptidão para a função e desde que apresente justificação escrita. A alínea b) aplica a mesma regra à saúde e ao estado de gravidez. O n.º 5 do mesmo artigo classifica a violação destas regras como contraordenação muito grave.
Repara no verbo. A lei impede que te exijam essa informação. Não impede que sejas tu a oferecê-la. E a secção de interesses é, em muitos currículos portugueses, exatamente isso: um formulário voluntário sobre a vida privada, preenchido sem ninguém pedir.
Os dados que nunca deves escrever nessa secção
O artigo 9.º do RGPD proíbe, por regra, o tratamento de dados pessoais que revelem a origem racial ou étnica, as opiniões políticas, as convicções religiosas ou filosóficas e a filiação sindical, bem como dados genéticos, biométricos, de saúde e relativos à vida sexual ou orientação sexual. São as chamadas categorias especiais de dados.
Agora olha para as linhas que aparecem em currículos reais:
- "Militante do partido X desde 2018" revela opiniões políticas.
- "Delegado sindical" revela filiação sindical.
- "Catequista na paróquia de Santo António" revela convicções religiosas.
- "Voltei a correr maratonas depois da cirurgia ao joelho" revela dados de saúde.
- "Membro de uma associação de defesa dos direitos LGBT" revela orientação sexual.
Nenhuma destas atividades é motivo de vergonha. O problema é outro: entregas ao recrutador informação que ele não está autorizado a tratar e que já não consegue esquecer. A Comissão Nacional de Proteção de Dados insiste no princípio da minimização, segundo o qual só devem ser tratados os dados adequados, pertinentes e limitados ao necessário para a finalidade em causa. A tua candidatura passa a conter dados que ficam de fora dessa fronteira.
E a discriminação, quando acontece, é silenciosa. Ninguém te escreve a dizer que o partido, a igreja ou o sindicato pesaram. O telefone simplesmente não toca.
O Europass convida-te a fazer precisamente isso
Aqui está a parte que apanha muita gente desprevenida. O editor de CV do Europass tem uma rubrica chamada "Atividades Sociais e Políticas". O guia oficial de preenchimento em português diz que, "em função da finalidade para a qual esteja a preencher o seu CV, pode registar a sua filiação partidária ou associativa" e acrescenta logo a seguir o aviso certo: "Procure perceber primeiro se esta informação acrescenta valor à sua candidatura."
Ou seja, o modelo abre o campo e o guia manda-te pensar duas vezes. Numa candidatura normal a uma empresa privada em Portugal, deixa esse campo vazio. Preenche-o quando o destinatário torna a filiação numa qualificação, como uma candidatura a uma estrutura partidária, a uma organização não governamental ou a um cargo associativo. Se tens dúvidas sobre o formato em si, o Europass ou currículo moderno é uma decisão separada desta.
Quando a secção ganha mesmo o seu espaço
O mesmo guia do Europass tem uma rubrica dedicada, chamada "Passatempos e interesses", e a instrução é clara: "Os seus passatempos e interesses podem dizer muito de si. Acrescente-os, se perceber que podem favorecer a sua candidatura. Para quem ainda não tem experiência profissional esta seção pode ser reveladora de competências que constituam uma mais-valia para a entidade empregadora."
Traduzido para uma decisão prática, a secção justifica-se quando passa pelo menos um destes três testes:
- Tens pouca ou nenhuma experiência profissional. Primeiro emprego, regresso ao mercado depois de anos em casa, mudança de área. O espaço existe e tem de ser preenchido com prova de alguma coisa.
- O interesse é verificável. Tem uma entidade, datas, uma função e, se possível, um número ou uma ligação. Um clube, uma associação, uma federação, um portefólio.
- O interesse toca a função. Fotografia numa candidatura a marketing, andebol federado numa candidatura a monitor desportivo, gestão da tesouraria de uma coletividade numa candidatura a contabilidade.
Se a tua secção não passa em nenhum dos três, corta-a e dá essas linhas à experiência profissional.
Antes e depois: a secção reescrita
Este é o antes, retirado de um currículo de quem acabou o 12.º ano e se candidata a assistente de loja numa superfície de Aveiro:
Interesses: Leitura, cinema, viagens, desporto, música.
E este é o depois, com o mesmo candidato e exatamente os mesmos interesses:
Interesses e atividades
Andebol federado na Associação Desportiva de Ovar, 2019 a 2026. Sénior masculino, dois treinos por semana mais jogo ao fim de semana, seis épocas consecutivas sem interrupção.
Voluntariado no Banco Alimentar Contra a Fome, campanhas de maio e novembro desde 2022. Coordenação de uma equipa de oito voluntários num hipermercado de Aveiro.
Fotografia, portefólio em linha. Edição em Lightroom, usada nas fotografias de produto da loja de artigos desportivos onde fiz o estágio curricular.
O que mudou não foram os passatempos. Foi o que cada linha prova. Seis épocas seguidas no mesmo clube são assiduidade e compromisso, que é exatamente o que uma loja quer saber de quem vai fazer turnos ao sábado. Coordenar oito voluntários é a experiência de liderança mais próxima que um candidato de 18 anos consegue ter. O Lightroom é uma competência técnica com nome, não um gosto. E nada ali revela saúde, religião, partido ou sindicato.
Interesses que, em Portugal, valem mais do que parecem
Alguns interesses têm peso concreto no mercado português e merecem linha própria.
Bombeiro voluntário. A Lei n.º 32/2007, de 13 de agosto, estabelece que as faltas ao trabalho para cumprimento de missões de socorro são justificadas, e o bombeiro voluntário não pode ser prejudicado na carreira nem na avaliação profissional por causa delas. Escreve-o no currículo. É honesto, evita uma conversa difícil no terceiro mês e mostra treino em situações de pressão que poucas atividades demonstram.
Voluntariado formal. A Lei n.º 71/98, de 3 de novembro, e o Decreto-Lei n.º 389/99, de 30 de setembro, criaram o cartão de identificação de voluntário, emitido pelo Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado a pedido da entidade promotora e válido por três anos. Se tens cartão, o teu voluntariado deixa de ser uma afirmação e passa a ser um documento verificável.
Carta de condução. O Europass trata a carta numa rubrica própria, não nos passatempos, e faz sentido: em muitos anúncios portugueses a categoria B é requisito eliminatório. Escreve a categoria numa linha visível, junto aos contactos ou às competências, e não enterrada entre o cinema e a leitura.
Vida associativa. O guia do Europass usa a presidência de uma associação de estudantes como exemplo de competência de tomada de decisão. Se dirigiste uma coletividade, uma tuna, uma associação de pais ou uma comissão de festas, isso é gestão de pessoas e de orçamento com outro nome.
Onde a secção vive e quanto espaço ocupa
A Michael Page Portugal, na lista de dez pontos a verificar antes de enviar o currículo, é direta em três deles: "Seja breve, não ultrapasse as duas páginas", "Evite detalhes pessoais supérfluos como a idade, religião e género" e "Mantenha a secção dos seus interesses e hobbies resumida". A Randstad Portugal acrescenta a regra que resume tudo: "é crucial adaptar sempre esta informação à função a que se candidata".
Na prática: última secção da página, depois da formação e das competências, três a quatro linhas no máximo. Nunca uma página. O guia do Europass avisa que "por norma os empregadores despendem menos de 1 minuto com a análise de CVs para efetuar a primeira triagem dos candidatos", e nesse minuto a secção de interesses é a última a ser lida, quando é lida.
Um detalhe pequeno que muda a leitura: chama-lhe "Interesses e atividades" ou "Atividades extracurriculares" em vez de "Hobbies". A palavra prepara o leitor para prova em vez de o preparar para tempos livres.
Escreve só o que consegues defender numa entrevista
Tudo o que está no currículo é um convite a uma pergunta. Se escreveres "leitura", conta com "e qual foi o último livro que leu?". Se escreveres corrida, conta com "faz que distâncias?". Escolhe coisas sobre as quais gostas de falar dois minutos, porque é exatamente esse o tempo que te vão dar.
E há uma saída elegante para quando a atividade é boa mas o rótulo é sensível: descreve a função e omite a etiqueta. Em vez de nomear a paróquia ou o partido, escreve "coordenação semanal de um grupo de 25 jovens numa instituição sem fins lucrativos de Braga, 2021 a 2025". A competência sobrevive intacta e os dados da categoria especial ficam fora do papel. Se houver uma entrevista e a pergunta surgir, respondes nessa altura, com contexto e cara a cara.
Em resumo
A secção de interesses ocupa quatro linhas e obriga a duas decisões. A primeira é se merece estar lá: merece quando tens pouca experiência, quando o que escreves é verificável ou quando toca a função. A segunda é o que fica de fora: partido, sindicato, religião, saúde e orientação sexual não pertencem a um currículo português, por mais importantes que sejam para ti.
Escreve cada linha com entidade, datas e um número. Se uma linha não aguenta esse teste, não aguenta o currículo. Quando quiseres montar tudo com as secções já pela ordem certa, podes criar o teu currículo e deixar os interesses para o fim, que é onde eles pertencem.