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Dicas de CV

Currículo de pedreiro: exemplo, categoria e o que as obras pedem

Exemplo de currículo de pedreiro em Portugal: a categoria do CCT que tens de escrever, caixa de credenciais, formação de segurança e bullets com números.

8 min de leitura
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Um empreiteiro em Loures abre um anúncio para pedreiro e, ao fim de três dias tem dezenas de ficheiros na caixa de entrada. Quase todos dizem a mesma coisa: experiência em construção civil, pessoa responsável, disponibilidade imediata. O encarregado que os abre não precisa de saber que és responsável. Precisa de saber que categoria tens, o que consegues fazer sem ninguém ao lado e se podes estar na obra na segunda-feira de manhã.

E obra não falta. Os dados da AICCOPN, citados pela imprensa em março de 2026, apontam para um défice superior a 80 mil trabalhadores na construção em Portugal. No mesmo período, o inquérito Global Talent Shortage de 2026 da ManpowerGroup mostrava que 83% dos empregadores portugueses do setor admitem dificuldade em encontrar os profissionais de que precisam, um valor 12 pontos percentuais acima da média global de 71%. Quem sabe assentar tijolo tem mercado. O que falha, muitas vezes, é o papel.

Este artigo mostra como montar esse papel, com blocos que podes copiar e adaptar aos teus números.

As cinco perguntas que o encarregado faz ao teu currículo

Sempre as mesmas, sempre por esta ordem: que categoria profissional tens, que trabalhos dominas na prática, em que tipo de obra os fizeste, que formação de segurança já tiraste e se tens carta e disponibilidade para deslocações.

Se alguma destas respostas obrigar a telefonar-te para perceber, o currículo fica para o fim da pilha. Por isso o documento não abre com um parágrafo sobre dedicação e espírito de equipa. Abre com dados.

A categoria profissional é o dado que mais pesa

Esta é a parte que quase toda a gente escreve mal, e é a que mais muda o resultado.

No Anexo III do contrato coletivo de trabalho do setor da construção civil e obras públicas, divulgado pela AICCOPN, as profissões estão arrumadas em grupos de retribuição. Na área da construção civil, a escada é esta, de baixo para cima: servente no grupo XII, pedreiro de 2.ª e capataz no grupo X, pedreiro de 1.ª no grupo IX, chefe de equipa no grupo VIII, arvorado no grupo VII, encarregado de 2.ª no grupo VI, encarregado de 1.ª no grupo V e encarregado geral no grupo III.

No mesmo grupo IX do pedreiro de 1.ª estão o trolha ou pedreiro de acabamentos de 1.ª, o carpinteiro de toscos ou cofragem de 1.ª, o armador de ferro de 1.ª, o estucador de 1.ª, o ladrilhador ou azulejador de 1.ª e o montador de cofragens. Ou seja, o setor trata estas como profissões distintas, com nome próprio. Escrever apenas "pedreiro" quando és trolha de 1.ª é entregar menos do que tens.

Escreve a categoria tal como ela aparece no teu recibo de vencimento ou no contrato, e escreve-a logo por baixo do nome. Se nunca foste classificado em nenhuma, escreve a função real e os anos: "pedreiro, 8 anos de obra" é honesto e é infinitamente melhor do que "construção civil".

A caixa de credenciais que passa a triagem

Põe este bloco imediatamente a seguir ao nome e aos contactos, antes da experiência:

Categoria e credenciais Categoria profissional: Pedreiro de 1.ª (CCT da construção civil) Especialidades: alvenaria de tijolo e bloco térmico, reboco tradicional e projetado, betonilha, capoto (ETICS), assentamento de cerâmica Formação: Pedreiro, certificado pelo IEFP, concluído em 2021 Segurança: Segurança e saúde no trabalho na construção, 50 horas, 2024; trabalhos em altura e montagem de andaimes, 2025 Ficha de aptidão médica: válida Carta de condução: categoria B, viatura própria Disponibilidade: obra na Grande Lisboa e Setúbal, aceito deslocação com alojamento

Repara no que este bloco faz. Diz a categoria, diz o que sabes fazer com palavras que o encarregado usa todos os dias, e diz se podes subir a um andaime na semana seguinte. São sete linhas e respondem às cinco perguntas todas.

Se estás a meio de uma formação, escreve isso com a data prevista de conclusão. Muitas empresas contratam quem ainda não acabou, e algumas pagam o resto do percurso, mas só se souberem que ele existe.

O resumo de topo, em quatro linhas

Depois da caixa, três ou quatro linhas em texto corrido. Nada de frases feitas:

Pedreiro de 1.ª com 11 anos de obra em Lisboa e no Oeste, repartidos entre construção nova e reabilitação de edifícios antigos. Trabalho autónomo em alvenaria, rebocos e betonilhas, com prática em recuperação de fachadas em pedra e em aplicação de capoto. Habituado a equipas de quatro a seis pessoas e a obras com plano de segurança e saúde. Disponível para começar de imediato.

Quem lê isto já sabe onde te pôr. É essa a diferença entre um currículo que gera um telefonema e um que gera silêncio.

Experiência: a diferença entre o antes e o depois

O erro mais comum é descrever a profissão em vez de descrever o teu trabalho. Compara.

Antes:

Pedreiro numa empresa de construção civil. Fazia alvenarias, rebocos e outros trabalhos de obra. Trabalhava em equipa.

Depois:

Pedreiro de 1.ª em empreitadas de reabilitação no centro de Lisboa, em edifícios ocupados e com acesso condicionado. Execução de alvenarias de tijolo e de bloco térmico em paredes exteriores e divisórias, em média 18 m² por dia. Rebocos tradicionais e projetados em fachada, com trabalho sobre andaime fixo até ao 4.º piso. Aplicação de capoto em cerca de 900 m² de fachada em três empreitadas. Picagem e recuperação de paredes em pedra em dois edifícios pombalinos. Coordenação de dois serventes no dia a dia, incluindo a preparação de argamassas e a gestão do material da frente de obra.

A segunda versão não inventa nada. Usa os mesmos anos, com metros quadrados, tipo de obra, altura de trabalho e número de pessoas. Se não tens os números exatos, faz uma estimativa honesta e arredonda para baixo. Ninguém te vai pedir a folha de medições, mas toda a gente nota a diferença entre quem mediu o seu trabalho e quem nunca pensou nele.

Uma nota sobre obras conhecidas: se trabalhaste em empreitadas que se identificam, nomeia-as. "Ampliação de uma unidade hoteleira em Albufeira, 2024" diz mais do que três adjetivos.

Formação de segurança: a linha que o dono da obra precisa de ver

Na construção, a segurança não é um extra simpático no fim do currículo. O Decreto-Lei n.º 273/2003 regula as condições de segurança nos estaleiros temporários ou móveis e obriga à comunicação prévia à Autoridade para as Condições do Trabalho quando se prevê que a obra tenha prazo superior a 30 dias e mais de 20 trabalhadores em simultâneo, ou um total superior a 500 dias de trabalho. Numa obra dessas, o coordenador de segurança vai querer ver a formação de cada pessoa em pasta.

Isso muda a tua posição. Um pedreiro com formação em trabalhos em altura, montagem e utilização de andaimes ou movimentação manual de cargas entra numa empreitada sem burocracia extra. Escreve cada ação com o nome, a entidade formadora, o ano e a carga horária. "Formação em segurança" vale pouco. "Trabalhos em altura e andaimes, 16 horas, 2025" vale uma frase ao telefone.

Se chegaste há pouco tempo a Portugal

Boa parte de quem trabalha hoje nas obras portuguesas nasceu noutro país, e há um caminho oficial que muita gente desconhece. A AIMA lançou em 2026, em parceria com o IEFP, a AICCOPN, o CICCOPN e a Fundação Ageas, o programa Integrar para a Construção, dirigido a cidadãos imigrantes em situação regular em Portugal. O regulamento foi aprovado pela Deliberação n.º 684-A/2026, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 114, de 16 de junho de 2026.

Segundo a AIMA, cada percurso tem 600 horas, metade em oficina e metade em formação em contexto de trabalho, e o primeiro ciclo previa 500 participantes distribuídos por 25 turmas, com candidaturas abertas até 5 de julho de 2026. A formação decorre no CICCOPN, o centro de formação profissional do setor criado em 1981 por protocolo entre o IEFP e a AICCOPN, e, quando necessário, noutros centros da rede do IEFP.

No currículo, isto conta duas vezes: como qualificação reconhecida e como prova de que já trabalhaste segundo as regras portuguesas de obra. E se o português ainda não está fluente, escreve o nível com honestidade e acrescenta as línguas que falas. Em muitas frentes de obra, falar romeno, nepalês ou hindi com metade da equipa é uma competência a sério.

Onde enviar, e a quem

O iefponline continua a ser a porta de entrada para as ofertas do serviço público de emprego e a inscrição é necessária para te candidatares à maior parte delas. Depois há o Net-Empregos e o Indeed Portugal, onde os anúncios de pedreiro repetem quase sempre os mesmos requisitos: experiência comprovada, alvenaria, reboco e betonilha, e disponibilidade para deslocações.

Mas o canal que mais gente ignora é o direto. Grande parte das empreitadas nunca chega a publicar um anúncio. Faz a lista dos empreiteiros do teu concelho e dos distritos vizinhos, envia o currículo por email com uma linha de assunto que diga logo o que és ("Pedreiro de 1.ª, 11 anos, disponível na Grande Lisboa"), e liga dois dias depois. As empresas de trabalho temporário especializadas em construção são o outro caminho rápido, sobretudo para quem quer entrar numa obra grande sem esperar por um concurso.

Os erros que tiram o currículo da pilha

Mais do que duas páginas. Um endereço de email que não usas há anos. Fotografias de obra coladas no documento, que fazem o ficheiro passar dos limites de anexo. Enviar em Word em vez de PDF, para depois o formato se desfazer no computador de quem abre. E o clássico: dez anos de experiência resumidos em duas linhas.

Se quiseres montar tudo isto sem lutar com a formatação, podes criar o teu currículo a partir de um modelo já preparado e exportar em PDF. Vale a pena ler também o guia de como fazer um currículo para as regras gerais do mercado português e, se vais responder a um anúncio concreto, a carta de apresentação com meia dúzia de linhas certas faz mais diferença nesta área do que na maioria.

O teu ofício é dos poucos em Portugal onde a procura é maior do que a oferta. O currículo não precisa de te vender. Precisa de dizer, sem ambiguidade, o que sabes fazer e quando podes começar.

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