Referências no currículo: quando pôr, quem escolher e o que dizer
Referências no currículo em Portugal: o que diz o artigo 341.º do Código do Trabalho, quando são mesmo pedidas, quem escolher e um bloco pronto a copiar.
Laddro Team

Quase todos os currículos que circulam em Portugal acabam da mesma maneira: uma linha solitária no fundo da última página a dizer "Referências disponíveis a pedido". É uma frase que ocupa espaço e não transmite nada. Toda a gente as disponibiliza a pedido. Ninguém escreve "Referências indisponíveis".
A questão real é outra e quase nunca é explicada: em Portugal, o documento que prova onde trabalhaste não é uma carta simpática de um antigo chefe. É um papel com nome próprio, previsto na lei, que a empresa é obrigada a entregar-te. E o telefonema à tua antiga chefia acontece muito mais tarde do que pensas, numa fase em que já não dá para improvisar.
O que a lei te dá: o certificado de trabalho
Quando um contrato termina, seja por tua iniciativa ou da empresa, o empregador tem de te entregar um certificado de trabalho. Está no artigo 341.º do Código do Trabalho, que obriga a indicar "as datas de admissão e de cessação, bem como o cargo ou cargos desempenhados". Não é um favor nem depende de saíres em bons termos.
O mesmo artigo tem um número 2 que vale ouro e quase ninguém conhece: "o certificado de trabalho só pode conter outras referências a pedido do trabalhador". Ou seja, a empresa não pode acrescentar por iniciativa própria que saíste por justa causa, que faltavas muito ou que a chefia não ficou contente. Se acrescentar, está a violar a lei. E o número 3 do mesmo artigo classifica a violação como contraordenação leve, participável à Autoridade para as Condições do Trabalho.
Esse número 2 funciona nos dois sentidos, e é aí que está a oportunidade. Se saíste bem, podes pedir que o certificado inclua as funções em detalhe, os projetos em que estiveste, a razão da saída. Pedes tu, por escrito, no dia em que assinas a cessação. Depois disso é muito mais difícil conseguir que alguém se sente a redigir seja o que for.
Guarda o certificado em PDF de cada emprego por onde passaste. É a prova documental que nenhum antigo colega te pode negar por estar de férias ou ter mudado de número.
A linha "referências a pedido" pode sair do teu currículo
Tira-a. Não estás a esconder nada e não estás a prometer nada. Se um recrutador em Lisboa abrir o teu PDF e vir essa frase, não muda uma única decisão que ele ia tomar.
O espaço que ganhas dá para uma linha de resultados na experiência mais recente, que é onde a decisão se joga de facto. Se quiseres rever a ordem e o peso de cada secção, o guia de como fazer um currículo trata disso em detalhe.
Há uma exceção clara, e trato dela mais abaixo: anúncios que exigem referências em texto. Aí a linha não chega, tens de dar nomes.
Quando é que as referências entram mesmo no processo
A Randstad Portugal descreve a verificação de referências como uma etapa que "muitas vezes, é a etapa final antes de uma oferta de emprego ser feita". Não é um filtro de triagem. É a última confirmação antes de te fazerem uma proposta.
Isto tem duas consequências práticas. A primeira é que não faz sentido gastar meia página do currículo com contactos que só vão ser usados na semana em que já estão decididos a contratar-te. A segunda é mais incómoda: quando o pedido chegar, vais ter dois ou três dias para arranjar pessoas que atendam o telefone e digam coisas úteis. Se só começares a pensar nisso nesse momento, chegas tarde.
A Michael Page Portugal recomenda ao candidato incluir uma lista de "2-3 referências" e escolher pessoas com quem trabalhaste de perto "durante os últimos cinco anos". Cinco anos é o limite razoável. Uma chefia de 2014 já não se lembra de como trabalhas e nota-se ao telefone.
Quem escolher, por ordem de utilidade
A pergunta que o recrutador quer responder é simples: esta pessoa fez mesmo o que diz que fez? A ordem que funciona em Portugal é esta.
Primeiro, a chefia direta do emprego mais recente relevante. É a única pessoa que pode confirmar funções, autonomia e resultados ao mesmo tempo.
Segundo, um cliente ou fornecedor com quem trabalhaste de forma continuada. Funciona muito bem em comercial, consultoria, obra e turismo, porque a pessoa não tem qualquer interesse em inflacionar o teu valor.
Terceiro, um colega sénior da mesma equipa. Menos peso do que uma chefia, mas serve quando saíste de uma empresa onde a chefia mudou toda.
A Michael Page sugere três perguntas de triagem antes de convidares alguém: "A pessoa conhece os seus pontos fortes?", "Essa pessoa irá elogiar a sua ética profissional?" e "A sua referência é uma pessoa competente no seu setor?". Se hesitares em qualquer uma das três, escolhe outra pessoa. Uma referência morna faz mais estrago do que referência nenhuma.
Evita familiares, evita o teu melhor amigo que trabalha noutro setor e evita a pessoa que gosta de ti mas nunca te viu trabalhar. O recrutador percebe em dois minutos.
Autorização não é formalidade: é o RGPD
Escrever o número de telemóvel e o email de alguém num PDF que vais enviar a dezenas de empresas é tratar dados pessoais dessa pessoa sem base para isso. Não é um detalhe jurídico distante: é o teu antigo chefe a começar a receber chamadas de empresas a que ele nunca se candidatou.
A regra prática é simples. Pedes autorização antes, por escrito, e voltas a avisar sempre que der o contacto a uma empresa concreta. A Michael Page diz a mesma coisa por outras palavras: mantém as referências informadas de que estás "envolvido num processo de recrutamento" e garante que "estão prontas para a chamada quando chegar o momento".
Uma mensagem que funciona, curta o suficiente para alguém responder no mesmo dia:
Boa tarde, Sandra. Estou em processo para uma vaga de coordenadora de operações numa empresa de logística em Alverca e pediram-me duas referências. Posso indicar o seu nome e o seu contacto direto? A chamada deve acontecer esta semana e demora cerca de quinze minutos. Envio-lhe o anúncio para saber de que funções vão falar.
Do lado do recrutador, o RGPD não impede o telefonema. A Randstad nota que, ao abrigo de regulamentos como o RGPD, a recolha de dados do candidato no âmbito da verificação de referências "é normalmente considerada legítima". O que muda é o consentimento da pessoa cujo contacto estás a dar, e essa parte é tua.
Anúncios que exigem referências mesmo
Há setores em Portugal onde as referências não são a última etapa: são o requisito de entrada. Apoio domiciliário, serviço doméstico, limpeza em casas particulares, condução com valores, segurança privada, tudo o que envolve entrar em casa de alguém ou ficar sozinho com bens.
Um anúncio da Interdomicilio Porto para empregada doméstica na zona de Lordelo do Ouro, publicado a 4 de setembro de 2026, lista o perfil desejado e inclui, ao lado da experiência em confeção de refeições, a linha "Referências profissionais (obrigatório)". Não é uma preferência. É o mesmo estatuto que a experiência.
Quando o anúncio é assim, não mandes o CV sem a secção. Mandas com ela e ganhas a triagem à chegada.
O bloco pronto a copiar
Assim é que se escreve uma secção de referências que serve para alguma coisa. Nome, cargo à data, empresa, relação contigo, período em que trabalharam juntos e contacto.
Referências
Sandra Marques, Diretora de Operações, Transportes Vale do Tejo (Alverca). Minha chefia direta entre março de 2022 e abril de 2026. Contacto disponibilizado com autorização prévia: 9XX XXX XXX.
Nuno Peixoto, Responsável de Armazém, Grupo Lusomédica (Maia). Trabalhámos juntos na transição do armazém para o novo WMS entre 2023 e 2024. Contacto disponibilizado com autorização prévia: [email protected]
Certificados de trabalho das duas empresas disponíveis em PDF.
Repara no que esta versão faz e a linha genérica não fazia. Diz qual era a relação, o que é a informação que o recrutador quer antes de marcar a chamada. Diz o período, o que fecha a porta a dúvidas sobre há quanto tempo isto foi. E encerra com o certificado de trabalho, que transforma a secção de promessa em prova.
A última linha é a que menos gente usa e a que mais peso tem, porque é a única parte que não depende de alguém atender o telemóvel.
E se não tiveres referências
É a situação de quem está no primeiro emprego, de quem voltou de uma pausa longa ou de quem saiu mal da última empresa. Nenhuma delas é um beco sem saída.
No primeiro emprego, o orientador de estágio, o professor da unidade curricular do projeto final ou o coordenador do voluntariado servem. Dizes exatamente isso: orientador de estágio curricular, não "referência académica".
Depois de uma pausa, procura a chefia do emprego anterior à pausa e explica-lhe o contexto ao pedires. Quem esteve dois anos fora não perde a credibilidade do que fez antes.
E se saíste mal, usa o certificado de trabalho. A empresa tem de te entregar um e, pelo número 2 do artigo 341.º, não pode meter lá a versão dela dos acontecimentos sem tu pedires. Datas, cargos, ponto final. Em paralelo, apresenta um colega sénior da mesma equipa como referência. Não estás a esconder nada: estás a escolher a pessoa que consegue falar do teu trabalho em vez da pessoa que quer falar da tua saída.
Em resumo
Tira a frase feita do fundo do currículo. Guarda o certificado de trabalho de cada saída e pede por escrito, no momento certo, que ele diga mais do que o mínimo. Escolhe duas ou três pessoas dos últimos cinco anos, pede-lhes autorização antes de dares o contacto a quem quer que seja, e avisa-as na véspera da chamada. E só põe a secção no PDF quando o anúncio a exigir ou quando já estás na reta final.
Se estiveres a reorganizar o currículo, o editor da Laddro deixa-te acrescentar uma secção de referências apenas nas candidaturas onde ela faz falta, sem teres de manter dois ficheiros diferentes.